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Teatro à cunha, cinema à míngua

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06.04.2026

Em Lisboa, a cidade onde vivo e cuja realidade melhor conheço, comenta-se cada vez mais no meio cultural e entre amigos algo que já nem é propriamente um princípio ou um preconceito: é um estado de espírito, uma constatação, quase uma meteorologia cultural. As salas de teatro estão cheias. Às vezes, não estão apenas cheias: estão esgotadas, congestionadas, com listas de espera à hora do espetáculo e aquela pequena desilusão de irmos aos sites de compra de bilhetes e percebermos que já só há lugares para daqui a umas semanas, isto quando as peças estão em cartaz durante muito tempo, ou, no caso das representações mais curtas, de ser mesmo impossível vê-las, como aconteceu há dias com a singular versão de Um Inimigo do Povo, de Marco Martins, inspirada na operação policial na Rua do Benformoso. Entretanto, o cinema português continua a viver naquela relação tóxica, meio conjugal, meio clínica, com o público: produzem-se filmes já numa quantidade razoável — este ano, ainda estamos no início de Abril, e estreiam, em média, quase à razão de um por semana, embora os números de espectadores não sejam famosos; são filmes que quase todos ganham prémios ou passaram por grandes festivais internacionais, como é o caso recente de O Riso e a Faca ou Entroncamento, este estreado há poucos dias; chegam às salas, ficam uma semana em cartaz, desaparecem, entram num debate, saem por uma porta lateral e, quando damos por isso, já ninguém sabe onde é que o filme está, quem o viu ou se alguma vez existiu — sobretudo no caso de vários documentários que chegam às salas — para lá da folha de candidatura aos apoios do ICA. Os números recentes — consultei, por exemplo, o Ranking de Filmes Nacionais Estreados | Top Nacional Films 2026, até 1 de Abril, publicado no site do ICA — ajudam a perceber a dimensão do problema, ou melhor, desta realidade. Mas vejamos: em 2025, os cinemas portugueses registaram 10,9 milhões de espectadores, o pior resultado desde 1996, sem contar com os anos da pandemia; estrearam mais de 50 filmes portugueses ou em coprodução nas salas de cinema. O destaque do ano foi o filme O Pátio da Saudade, realizado por Leonel Vieira, que se tornou o mais visto, totalizando 69.562 espectadores, mesmo num registo bastante popular; e portanto o cinema português ficou-se pelos 229.455 espectadores, ou seja, apenas 2,1% da audiência total. Em receitas, a quota desceu ainda mais, para 1,7%. Isto não é má vontade contra o cinema português, pelo contrário: é um diagnóstico.

Quando o palco ganha ao ecrã

Ao mesmo tempo, o teatro não está propriamente a morrer em silêncio, como tantas vezes se repetiu durante décadas, com aquele prazer muito português de anunciar funerais culturais antes do tempo. Pelo contrário: o setor dos espetáculos ao vivo gerou 206,4 milhões de euros de bilheteira em 2024, com 44.941 sessões e 18,6 milhões de espectadores; o teatro foi a segunda atividade artística com mais sessões, representando 35,7% do total, com 2,3 milhões de espectadores e 23 milhões de euros de receita, e com o preço dos bilhetes, em muitos casos, no mínimo ao dobro do preço dos bilhetes de cinema. E, em 2025, segundo a BOL — a plataforma de venda de bilhetes online —, venderam-se mais de cinco milhões de bilhetes de teatro, num valor de 35 milhões de euros, o dobro de 2024. Pedro Penim, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, resumiu há uns tempos, numa entrevista à Agenda Cultural de Lisboa, essa realidade e essa sensação de forma cristalina: “Há muitas casas esgotadas” e, em Lisboa, “já não se fala na crise do teatro como eu cresci a ouvir.”

O público não desapareceu

Ora, isto interessa muito, porque desmonta uma desculpa preguiçosa que durante anos serviu para tudo: “as pessoas já não saem de casa”, “o público desapareceu”, “a cultura perdeu relevância”, “o digital matou o encontro físico”. Não. As pessoas saem de casa. As pessoas compram bilhetes. As pessoas aceitam pagar, mesmo com preços mais altos — o INE........

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