Debater com Ventura é jogar um jogo de futebol em que o árbitro leva sempre uma das equipas ao “colinho”
Há, de facto, uma certa ingenuidade quase comovente, e digo isto com a ternura que se reserva a homens como Pacheco Pereira — ai se o Ventura o apanhasse em grande forma, há umas décadas, no Flashback, ou com José Magalhães, ou mesmo com Nogueira de Brito, na TSF, muito bem moderados por Carlos Andrade —, que ainda acreditam em bibliotecas, em notas de rodapé e em factos verificáveis, na ideia de aceitar debater André Ventura como se André Ventura fosse, de facto, a um debate. Não vai. Nunca foi. Não quer. Não lhe interessa. O que ele gosta não é de debater: é de ocupar o espaço, esmagar o tempo, atropelar a frase do outro, lançar três ou quatro petardos, baralhar cronologias, misturar Salazar com Sócrates, a descolonização com o Apocalipse, a corrupção com o Juízo Final, e depois sorrir com aquela cara de mau aluno safado que copiou no teste todo, já entregou a cábula ao colega do lado e ainda faz ar ofendido quando o apanham. O problema do frente-a-frente de ontem na CNN entre José Pacheco Pereira e André Ventura não foi ter corrido mal ao político, historiador e democrata da velha guarda. Foi ter corrido exatamente como era previsível. O que se viu foi um grande professor, mas já velho e cansado, raposa experiente, homem de arquivos, memória e leitura, a entrar num ringue onde o adversário não combate com luvas: combate com lama. E quando um combate é na lama, perde sempre quem insiste em aparecer de camisa lavada e cabeça erguida.
O debate tinha nascido, ironicamente, de uma boa intenção. Pacheco Pereira desafiara Ventura a discutir com “factos e documentos”, sem ataques pessoais, depois de o líder do Chega ter repetido a tese de que, pouco depois do 25 de Abril, teria havido mais presos políticos do que antes da revolução. O próprio desafio foi tornado público com essa moldura: documentação, prova, uma hora de confronto sério, sem circo. Ventura aceitou o convite para ontem, segunda-feira, às 22h00, na CNN Portugal. Até aqui, tudo parecia civilizado. Parecia. Porque, como se confirmou depois, uma coisa é combinar xadrez; outra é aparecer alguém com um galo de Barcelos numa mão e uma buzina de camionista na outra.
Ora, quando o debate começou, o vício de origem estava lá todo. Pacheco foi com a expectativa, talvez suicidária, mas nobre, de que a realidade ainda tem alguma hipótese contra a berraria. Ventura foi com o seu saco de ginásio habitual, cheio de greatest hits: “a esquerda intelectual”, “as palas ideológicas”, “os 50 anos de corrupção”, “Portugal traiu”, “o sistema está podre”, “o Estado Novo também tinha defeitos, mas…”. Aquele “mas” do venturismo é sempre uma roulotte moral estacionada à beira da História: vende-se ali relativização ao quilo, negacionismo de feira e simplificação industrial. É a política transformada em comentário de caixa de Facebook ou vídeo no TikTok, com melhor guarda-roupa e pior consequência. E,........
