As canetas que não escrevem, emagrecem
No meu tempo, uma caneta servia para duas coisas muito simples: escrever e sujar os dedos. Não havia mistério, não havia tecnologia, não havia hormonas sintéticas a circular no organismo. Havia tinta azul, cadernos pautados e professores que acreditavam firmemente que a letra dizia muito sobre a personalidade de uma pessoa ou de um miúdo na altura. No meu caso, diziam sobretudo que eu provavelmente acabaria médico. Não por vocação, mas por caligrafia. Acabei jornalista. Porém, a minha letra sempre foi uma espécie de eletrocardiograma em crise existencial: uma sequência de gatafunhos que nem eu próprio conseguia (nem consigo agora) decifrar, nem meia hora depois.
Ainda hoje me lembro da primeira caneta de tinta permanente que recebi. Era um objeto quase cerimonial, daqueles que se ofereciam a um rapaz como quem entrega uma chave simbólica para a vida adulta. Claro que o resultado foi imediato: dedos azuis, bata da escola azul, mesa da cozinha azul e uma cara da minha mãe que parecia anunciar o fim da civilização ocidental. A solução foi simples: passei para o lápis. O problema é que depois comecei a roer os lápis. Em retrospetiva, talvez fosse o meu primeiro regime alimentar.
Mas eis que chegamos ao século XXI e alguém decidiu reinventar a caneta. Não para escrever, não para assinar cheques — aliás, já ninguém assina cheques — mas para emagrecer. Caramba, agora existem canetas que se espetam na barriga e fazem desaparecer quilos como quem apaga um parágrafo mal escrito, e sem ser preciso aquelas borrachas que tinham dois lados: um para apagar lápis e o outro, teoricamente, para apagar caneta. Embora na prática só servisse para fazer um buraco no caderno.
Estas maravilhas da ciência moderna, que nada têm a ver com a escrita, chamam-se “canetas emagrecedoras” e aparentemente são a nova religião da medicina contemporânea.
Os médicos explicam que estas canetas funcionam imitando uma hormona chamada GLP-1, responsável por regular a fome. Traduzido para português corrente: o corpo passa a achar que já almoçou mesmo quando ainda está a olhar para o menu. É um truque elegante. E eficaz. No Reino Unido, cerca de 1,6 milhão de pessoas já experimentaram estas........
