Zeca Afonso - O eco eterno de uma voz aos 17 anos
Hoje, o calendário volta a parar no dia 23 de fevereiro. O tempo passou, mas a memória daquele dia de 1987 permanece intacta, gravada a fogo na minha juventude. Tinha eu 17 anos, quase a completar 18, numa idade em que o mundo começava a fazer sentido através das causas e dos ideais. Foi nessa manhã, ao chegar à Escola Secundária José Estêvão, em Aveiro, que a vida me deu uma lição de saudade que nunca mais esqueci. Os meus colegas e amigos, que tão bem conheciam a minha admiração pelo Zeca, aguardavam-me à porta, num silêncio pesado. Quando me deram a notícia de que Zeca Afonso nos tinha deixado, o chão abriu-se. Explodi em lágrimas. Não era apenas a perda de um cantor; era o silêncio súbito de uma consciência nacional.
E que ironia do destino, ou talvez destino mesmo, que essa homenagem radiofónica que gravámos um mês antes tivesse acontecido aqui, em Aveiro. Porque foi precisamente nesta cidade, na freguesia da Glória, que José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu a 2 de agosto de 1929. Zeca foi um filho de Aveiro, cresceu “na parte da cidade voltada para o realismo e para o mar”, viveu os seus primeiros três anos numa casa no Largo das Cinco Bicas, com a tia Gé e o tio Chico, antes de seguir para Angola em 1933, onde o pai trabalhava como juiz colonial. Aveiro foi o berço deste gigante que mais tarde se tornaria a voz da liberdade portuguesa.O destino, por vezes, tem uma ironia doce e dolorosa. Apenas um mês antes da sua partida, por desafio da nossa professora de Jornalismo, tínhamos mergulhado de alma e corpo na obra deste aveirense ilustre.
Tínhamos estado num pequeno estúdio do nosso colega e amigo Rui Loura (atual jornalista na CNN) a gravar um programa de rádio que foi muito mais do que um trabalho escolar; foi uma iniciação. Deambulámos pelas melodias de “Maria Faia”, sentindo a força das raízes e explorámos o convite fraternal de “Traz Outro Amigo Também”. Conjugámos essas notas com a sua biografia, tentando entender o homem por detrás do mito. Mal sabíamos que, semanas depois, essa homenagem se transformaria num adeus.
Para mim, aos 17 anos, o Zeca não era apenas uma figura histórica do 25 de Abril. Era a prova de que a música pode ser uma arma de combate e um colo de abrigo. A sua força residia na coerência. Enquanto a doença — essa maldita Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) implacável — lhe ia roubando os movimentos e lhe cerrando o corpo, a sua voz interior nunca se calou. Ele ensinou-nos que é possível estar preso num corpo que falha e continuar livre na alma que canta.
O seu património musical é uma herança que não nos é permitido esquecer. Não podemos deixar cair no esquecimento obras primas como “Grândola, Vila Morena”, o sinal da liberdade; “Os Vampiros”, que denunciou a opressão com uma genialidade ímpar; “Venham Mais Cinco”, hino de resistência; “Menino do Bairro Negro”, que nos obrigou a olhar para os marginalizados; “Canto Moço”, “A Morte Saiu à Rua”, “Trova do Vento que Passa”. Cada acorde é uma lição de cidadania.
Zeca Afonso partiu neste dia, mas o seu legado é imortal. Aquele programa de rádio que gravámos com tanto carinho no estúdio do Rui Loura foi o meu primeiro passo para entender que a cultura se constrói com memória. Hoje, anos depois, continuo a ouvir o Zeca. Continuo a chorar a sua falta, mas acima de tudo, continuo a cantar a sua presença.
O seu corpo sucumbiu à doença, mas a sua música venceu a morte. E enquanto houver quem cante “Grândola” ou quem se emocione com “Traz Um Amigo Também”, Zeca Afonso estará vivo, entre nós, na Escola Secundária José Estêvão, nas ondas da rádio, em Aveiro que o viu nascer, e sobretudo, na alma de quem, como eu, tinha 17 anos quando o mundo ficou mais silencioso, mas aprendeu a ouvir melhor.
Zeca, presente! Sempre.
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