Confunde-se tudo para causar confusão
Algumas reações à polémica em torno da vinda de Jerry Seinfeld a Portugal e à decisão de vários artistas portugueses de abandonarem o festival têm qualquer coisa de muito errado.
Li e ouvi vários comentadores que começam por confessar que não fazem a mínima ideia de quem são os artistas, que desconhecem o seu trabalho, mas sabem que são medíocres e oportunistas à procura de cinco minutos de fama. Até dizem que os artistas que cancelaram “nunca fizeram nada de relevante”. Isto dito por quem, segundos antes, admitia nunca ter ouvido falar deles. Eu pergunto: como sabem tudo isto? E respondo: não sabem. Inventam.
É uma forma bastante pobre de argumentar, mas parece ter encontrado espaço suficiente em jornais, televisões e redes sociais. Até parece que virou moda.
Não conhecer um artista não é um problema. Ninguém é obrigado a conhecer todos os profissionais que trabalham em Portugal. O problema é transformar essa ignorância num argumento para os desqualificar e, pior ainda, presumir as suas motivações sem conhecer uma única delas.
É difícil imaginar maior arrogância.
Também tenho dificuldade em perceber esta súbita preocupação com a suposta mistura entre política e espetáculo. Os artistas decidiram não participar num festival porque consideram que a presença de determinada pessoa e as suas posições públicas são incompatíveis com os seus valores. Não estão a proibir Seinfeld de atuar. Estão a decidir que não querem estar naquele palco.
É uma escolha. E é uma escolha política, como tantas outras que fazemos todos os dias.
O problema parece ser outro. Uns entendem a liberdade de expressão como um direito exclusivo de quem fala e esquecem-se de que também existe a liberdade........
