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Esqueça a Ferrante: causa espanto o que Édouard Louis espera do seu leitor

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10.03.2026

Esqueça a Ferrante: causa espanto o que Édouard Louis espera do seu leitor

Causou muito bafafá a entrevista concedida por Édouard Louis na semana passada para a Folha. Os primeiros comentários que me chegaram foram positivos. Leitores elogiavam o olhar complexo para a questão da identidade, que não define automaticamente nem virtudes nem mazelas.

Logo a coisa mudou de tom. Autor de obras como "Quem Matou Meu Pai" e "Mudar: Método", famoso pela sua autoficção, Louis mostrou deslumbramento com Annie Ernaux. Disse que sua precursora não era apenas uma boa autora ou uma referência para o próprio trabalho, mas alguém reinventou a literatura. Calma lá, camarada.

Pior. Contrapôs Ernaux a Elena Ferrante. Disse que a italiana, autora da Tetralogia Napolitana e um dos grandes nomes da literatura neste século, fazia romances para adolescentes com livros "realmente ruins".

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Foi a deixa para que uma falange de leitores saísse em defesa de Ferrante. Mensagens e vídeos tomaram as redes sociais. Quase todos com o mesmo tom: indignação com a pachorra do francês. Como pode tratar a italiana dessa forma?

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Ferrante tem um admirável séquito de leitores no Brasil. Sua obra está bem estabelecida, não muda de tamanho por conta do que algum Édouard acha ou deixa de achar.

Merece atenção outro aspecto tacanho no discurso de Louis. Considerar que escrever para adolescentes - o que não é o caso de Ferrante, basta ler seus livros para notar - seria razão para diminuir alguém.

Irônico que ao longo de boa parte da entrevista o escritor de 33 anos adota um tom profundamente juvenil em suas posições. Exemplo maior disso é o jeito mandão como se refere aos leitores:

"Os críticos falam que o importante é a liberdade do leitor para interpretar o que quiser. Por outro lado, ser explícito seria uma forma de ditar a emoção das pessoas. No meu trabalho, não estou interessado na liberdade do leitor. É o oposto. Eu quero forçar todos a serem confrontados com o que eles não querem ver".

Conheço escritores que garantem não dar bola para o que os leitores irão pensar. Pode ser algo arrogante, mas é uma posição que trilha um caminho distinto. Fazem a literatura que mais lhe apetece sem se preocupar com modismos ou demandas de mercado. Depois, se essa literatura encontrar o seu público, um tanto melhor. Confiam que haverá gente disposta a compreender e gostar do universo que criam.

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No caso de Louis é diferente. O que o francês deseja é que o leitor seja uma página em branco onde ele possa deixar bem marcada as suas experiências e convicções. Não quer sujeitos que, ao lê-lo, reflitam sobre o que propõe e tomem suas próprias conclusões de acordo com seus repertórios de vida e de leitura - esse que é, afinal, o papel mais nobre que um leitor pode desempenhar.

Louis quer um público que oscilando entre a compaixão, o remorso e a culpa pelo mundo ser cheio de podres esteja disposto a ler o que ele tem a dizer como se aquilo fosse uma grande lição. É outra vertente da palavra da salvação entoada de forma dogmática nas igrejas.

Esse sim me parece o ponto mais revelador da entrevista: notar que estamos diante de um escritor que atrai multidões, mas vira a cara para a autonomia de quem o lê. Há algo de autoritário em quem não está interessado na liberdade de seu interlocutor e renega um aspecto crucial da literatura: ser uma arte que acontece no diálogo - e no atrito - entre os mundos do escritor e do leitor.

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