menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Qual é a forma escrita do silêncio?

24 0
21.03.2026

Qual é a forma escrita do silêncio?

Há na Guatemala, em Chichicastenango, ouço dizer, uma parede que alcançou o negrume perfeito, impenetrável e fosca como pouca coisa é capaz de ser. É o altar de uma igreja, bem onde as pessoas acendem as suas velas, por isso a fuligem que a foi cobrindo ao longo das décadas, disso é feita sua tinta, uma parede escurecida pelas ânsias do tempo. Mais que qualquer figura sacra ali dentro, a parede se fez objeto de culto dos frequentadores, é para ela que lançam suas preces, é com ela que discutem seus destinos, conjuram seus futuros. E a parede continua a responder, há anos, apenas com sua opacidade profunda, com seu impenetrável silêncio.

Venho a conhecer esse silêncio numa entrevista do fotógrafo guatemalteco Luis González Palma, que vê naquela parede um preto simbolicamente pleno, uma espessura que é a própria forma do tempo. Sente que ali as pessoas rezam a si mesmas, e talvez por isso tenha feito também da parede objeto de seu culto, embora agora artístico. Já algumas vezes lançou sobre a parede o olho de sua câmera, fotografou o impecável breu fuliginoso, criou uma sequência de imagens da escuridão perfeita. O fascínio dos outros ele tomou para si para então lançá-lo de novo a outros, os que têm a chance de ver as suas fotos ou os que o ouvem falar a respeito. Eu mesmo, que por vezes me pego a pensar naquele negrume exemplar, meses depois de ter sabido de sua existência.

Procuro entender de que é feito o meu fascínio, o que me cativa quando ouço essa história peculiar, estranhamente absorvente. Procuro entender a admiração que sinto pelo fotógrafo, por sua criação de uma superfície tão fosca e impenetrável quanto a original. Uma superfície que não diz nada óbvio, nada transparente, uma superfície que nos assombra e nos perde. Eis uma possibilidade que só se abre ao artista visual, produzir algo expressivo sem nada imediato expressar. Já não são poucos os quadros negros perfeitos na história da arte, como não são poucos os quadros brancos imaculados, todos objetos enigmáticos que se parecem uns aos outros só por um instante, só enquanto não os situamos, e então se singularizam de maneira surpreendente.

Mônica BergamoMendonça é comparado a Moro, mas com resistência

Mendonça é comparado a Moro, mas com resistência

Daniela LimaLula busca fazer frente a Tarcísio no interior de SP

Lula busca fazer frente a Tarcísio no interior de SP

SakamotoDelação de Vorcaro será boa se não poupar ninguém

Delação de Vorcaro será boa se não poupar ninguém

Josias de SouzaPoder supremo migra para a mesa de Mendonça

Poder supremo migra para a mesa de Mendonça

É conhecido o efeito de alheamento que provoca no público a presença nos museus desses quadros inteiramente brancos ou negros. Quadros como os de Rauschenberg ou Malevich, ou o negro tão áspero de Rothko, ou o branco apunhalado de Lucio Fontana. Cada um deles diz com sua imagem algo único, mas não nos cabe afirmar o que dizem, toda palavra que se sobreponha à obra há de produzir um desvio, um erro, uma impertinência. São imagens que dizem sem nada dizer, ou dizem porque se recusam a dizer: o que vale nelas é indizível, é aquilo que calam, é a força de seu silêncio.

Eu ouço Palma e contemplo Rauschenberg tomado de certa inveja, como agora confesso. Para o escritor é impossível realizar o seu ofício sem nada dizer. A primeira palavra que empregue já vem carregada de um significado alheio, qualquer nome que porventura ele evoque, digamos Chichicastenango, tudo já mancha de sentido a sua obra. O único recurso que tem o escritor para aderir ao silêncio é fugindo ao seu ofício, tornando-se um desistente, um escritor que não escreve, que não encontra nada a dizer. Um ex-escritor perdido entre suas penas.

E, no entanto, há dias em que o escritor não quer falar, não quer se fazer comentarista do mundo ou intérprete do real. Há dias em que não deseja contar histórias do passado e nem descrever o presente, não tem vontade de buscar velhas anedotas nem de explorar seus sentimentos, não acha razoável expor sua irrelevante visão da política ou da guerra. O escritor pode preferir refletir, esperar, se esconder. O escritor quer apenas se calar sem deixar de escrever, quer que sua escrita alcance a condição de negrume perfeito, opaca e impenetrável como só as imagens podem ser. Como se faz para escrever assim? Que forma escrita pode assumir o silêncio? E que sentido por fim se alcança quando assim se escreve?

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.

Leandro Boneco é emparedado após dinâmica no BBB 26

Alcaraz manda recado relevante com vitória imponente sobre Fonseca em Miami

Ataques se intensificam no Oriente Médio e continuam a provocar efeitos globais

Alcaraz relembra 1º duelo com Nadal e elogia Fonseca: 'Sei quão bom ele é'

Jordana e Jonas voltam a se beijar, e clima esquenta embaixo do edredom


© UOL