Clarice Lispector quer calar o futebol
Clarice Lispector quer calar o futebol
Um dia, Clarice Lispector intercambiava com amigos dez mil anedotas de morte, e do que tem de sério e de circo. Quem conta é João Cabral, num poema em sua homenagem, poema anedótico que cabe na íntegra no primeiro parágrafo desta crônica. Nisso, chegam outros tantos amigos vindos do último futebol, comentando o jogo, recontando-o, refazendo-o, gol a gol. Quando o futebol esmorece, abre a boca um silêncio enorme, e ouve-se a voz de Clarice: Vamos voltar a falar na morte?
Muitas vezes li esse poema, sempre com uma imperturbável identificação com a autora, com o autor. Não serei o primeiro a dizer, afinal, que uma das qualidades de um escritor é saber falar com naturalidade sobre assuntos graves, os mais tensos e existenciais, aqueles que só se deixam falar pela boca do silêncio. Um escritor não deve se perturbar com as perturbações possíveis de suas palavras, não deve se constranger com os constrangimentos que por acaso possa suscitar. As distrações pueris que abram espaço: o escritor quer falar da morte. E, no entanto, vou confessar que por estes dias ando mais próximo dos outros, dos desordeiros, dos ruidosos mandriões que insistem em fazer do diálogo a narrativa interminável de........
