A estátua mais doida da Bélgica
'Aqui o rei bêbado de outro país vomitou': a estátua mais doida da Bélgica
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50º50'N, 4º21'LParque de BruxelasQuartier Royal/Koninklijke Wijk, Bruxelas, Bélgica
Bruxelas tem um humor particular quando se trata de seus monumentos. Pudera. Difícil pensar em uma cidade cuja estátua mais célebre seja tão curiosa quanto um moleque urinando sem parar.
Mas não é só o famoso Manneken Pis ("pequeno mijão", em holandês). A capital da Bélgica e sede da União Europeia tem também uma fonte com um busto do deus grego Tritão cuspindo desafiadoramente e a estátua de um cachorro marcando território em um poste.
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Até para homenagear personagens históricos, Bruxelas tem um jeitinho próprio. Foi o que aconteceu com Pedro, o Grande.
Um dos czares mais importantes da Rússia, ele inspirou um busto em um parque. À primeira vista, a obra parece seguir a tradição, não é uma escultura que fuja dos padrões clássicos. Você olharia e passaria batido.
O humor está no contexto. O busto fica no lugar onde o imperador russo teria passado mal de tanto beber.
O busto é uma das diversas estátuas que enfeitam o Parque de Bruxelas, o maior e mais antigo parque público da cidade. Desenhado em estilo neoclássico, ele faz parte do grande projeto urbanístico dos anos 1780 que remodelou a capital.
Antes, no local, ficava o Palácio de Coudenberg, residência dos duques de Brabante e sede do governo dos Países Baixos Austríacos, território que ocupava a atual Bélgica no século 18. Um incêndio destruiu o local em 1731, e por décadas ele esteve em ruínas.
Em 1717, o palácio ainda estava intacto, e seu parque, usado desde a Idade Média para as caçadas dos duques, esteve na rota de Pedro, o Grande. Mas o desfecho da noite foi inusitado.
Após um dia cansativo de visitas e reuniões, o czar fez uma refeição pesada, acompanhada de bastante álcool. No parque, não aguentou e pôs tudo para fora.
A ocasião foi eternizada mais de cem anos depois. Em 1856, a Bélgica já havia conquistado a independência e o antigo palácio e o bosque medievais já tinham dado lugar ao novo parque neoclássico. Naquele ano, um príncipe russo rememorou a passagem de Pedro por Bruxelas.
Sob o busto, a placa comemorativa dizia: "INSIDIENS MARGINI HUIUS FONTIS, AQUAM NOBILITAVIT LIBATO VINO". Traduzindo: "Postando-se à margem desta fonte, enobreceu a água ao libá-la com vinho."
Infelizmente, um século e meio de falta de manutenção e vandalismo apagaram a inscrição. Mas o busto segue lá, mesmo que às vezes também seja alvo de vândalos.
A placa dizia, de um jeito bonito, poético e em latim, que um dos homens mais poderosos do mundo da época, um dos maiores personagens da história russa, tomou um porre daqueles e vomitou em público. É, acontece.
Para Pedro, era Carnaval o ano inteiro.
Se a Rússia tem hoje a maior extensão territorial do planeta, isso se deve, em boa parte, ao reinado de Pedro. Czar entre 1682 e 1725, ele transformou um país agrário em uma potência imperialista que se expandiu para o leste até chegar ao Alasca.
Pedro criou um exército enorme e temido (talvez mais pelos russos do que pelos estrangeiros). Mesmo em tempos de paz, havia uma série de trabalhos forçados, e a construção de uma nova capital custou a vida de 100 mil trabalhadores.
São Petersburgo era o símbolo de uma Rússia mais próxima da Europa Ocidental. Mas até o território onde ela foi fundada, no Golfo da Finlândia, teve que ser conquistado.
A Rússia precisou vencer uma guerra contra a Suécia para assegurar o território. No conflito, 20% dos finlandeses, que ainda não tinham um país próprio, morreram de fome.
Pedro emendou uma guerra na outra em 37 anos contra otomanos, suecos e persas. Mas suas reformas não ficaram restritas à violência dos campos de batalha.
Ele aboliu o antigo calendário e adotou o modelo juliano. Embora o calendário gregoriano existisse desde o século 16, estava bem longe de ser uma unanimidade no Ocidente.
Pedro chegou até a proibir a barba. Religiosos que quisessem mantê-la tiveram que pagar um imposto.
O "Grande" do título fazia sentido de diversas maneiras. Com mais de 2 metros de altura, Pedro bebia o que podemos imaginar que um russo desse tamanho, que tinha tudo e mais um pouco, pudesse beber.
Pedro começou a beber muito jovem, no bairro alemão de Moscou. Já era rei desde os dez anos (sua meia-irmã Sofia foi regente até ele chegar à maioridade), então nunca deixou de associar as funções monárquicas ao álcool.
Pedro foi o primeiro czar a beber em público, em bailes e audiências. Era fã de vinhos húngaros e alemães, e não considerava vergonhoso ser visto alterado, tanto que começava o dia com uma dose de vodca e um pepino em conserva, combinação clássica russa.
Em termos políticos e diplomáticos, ele instituiu uma relação diferente com a bebida. Enquanto seu pai, Aleixo 1º, ordenava que seus boiardos (nobres russos) embebedassem embaixadores estrangeiros para descobrir eventuais segredos, Pedro preferia ficar bêbado com eles, segundo o historiador Georgy Manaev.
Isso não era raro. O problema era acompanhá-lo.
"Quando me recusei a beber, o próprio czar aproximou-se de mim, acariciou-me e beijou-me", lembrou um enviado dinamarquês.
Com uma mão segurou minha cabeça, com a outra aproximou um copo da minha boca e implorou tanto, proferiu tantas palavras gentis, que finalmente bebi vinho. Mais de uma vez, tentei escapar sem ser notado, duas vezes já estava no meu barco. Mas, antes que eu pudesse partir, o czar desceu e me levou de volta."
Quem nunca precisou lidar com um bêbado chato? Mas e um bêbado chato de 2 metros de altura e que ainda por cima é um monarca?
A chatice nem sempre estava ali. Há relatos também de que ele era um excelente anfitrião.
Na festa de batismo de um novo navio, em 1724, um nobre alemão registrou que Pedro estava de ótimo humor e que, portanto, houve "uma bebedeira terrível". Escreveu:
Toda a companhia ficou até as 3h, e até as damas beberam pesadamente. Muitos ficaram mal no dia seguinte, mesmo que entre eles houvesse aqueles para quem uma taça de vinho não era novidade alguma"
Em 1710, um duque letão se casou com Ana, uma sobrinha do czar. São Petersburgo foi tomada por dois meses de festas. Quando chegou o dia dos recém-casados partirem, o jovem duque Frederico, de 18 anos, resolveu entrar em uma disputa alcoólica com o czar, então com 38 anos.
No dia seguinte, no início da viagem de volta, o recém-casado morreu. Relatos da época apontaram que o desafio de bebuns da véspera, somado aos meses de bebedeira, trucidaram o organismo do jovem duque.
Não espanta, se tomarmos como parâmetro uma regra instituída por Pedro em suas assembleias. Sempre que um político chegasse atrasado a um evento, ele deveria entornar uma grande taça com o brasão de armas do império, a águia bicéfala. Dentro do recipiente, 1,5 litro de vodca.
Sete anos depois de ter, talvez, matado o marido de sua sobrinha de tanto beber, Pedro zarpou para os Países Baixos. Bruxelas parou com a ocasião.
Os habitantes de Bruxelas haviam acorrido em multidão ao longo do canal, até a uma légua da cidade, para ver o homem extraordinário que vinha visitar seu país. Sua expectativa foi frustrada, assim como o fora a dos habitantes de Antuérpia" Escreveu o historiador belga M. Gachard em 1878.
"Pedro só saiu de seu iate às oito horas da noite, entrou numa carruagem de seis cavalos que o marquês de Prié lhe enviara e dirigiu-se diretamente à residência que havia escolhido. No momento em que entrava no parque, três salvas reais foram disparadas pela artilharia (...)"
Em meio a compromissos oficiais e bebedeiras, como a que lhe rendeu o busto no parque, Pedro lembrou-se da esposa, a imperatriz Catarina. Em uma carta, pediu a ela que lhe dissesse quais nomes ou brasões gostaria de mandar bordar em "engageantes" (falsas mangas, em voga na moda feminina), "pois a melhor renda de toda a Europa é feita aqui, mas só fazem por encomenda".
Pedro era capaz de surpreender em suas cartas. Ainda mais depois de um porre — ou um "presente de Baco".
Em 1703, escreveu a um conde de Moscou:
Não me lembro como parti, pois fiquei extremamente alegre com o presente de Baco. Dito isso, peço perdão a todos a quem causei aborrecimento, especialmente àqueles que estavam presentes no momento da minha partida. Que essa ocasião seja esquecida…"
A ocasião, segundo o historiador Alexander Sharymov, foi um banquete em que o czar perdera a paciência com o embaixador holandês na Rússia. Ele demonstrou sua irritação ao dar socos e golpes com o dorso de sua espada.
Porém, quando o conde começou a transmitir o pedido de desculpas ao diplomata, ele fez pouco caso. A festa tinha sido tão apoteótica que o próprio holandês não se lembrava do que havia acontecido.
Nobreza a gente vê em gestos assim. Você pode ser até um czar, mas, se exagerou, precisa mandar aquela mensagem padrão no dia seguinte:
Foi mal, tava doidão."
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