menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O caso Master não é um escândalo da direita

7 0
11.03.2026

O caso Master não é um escândalo da direita

Desde que o caso Master virou o assunto número um do país, o maior escândalo financeiro da história brasileira, Flávio Bolsonaro (PL) só cresceu nas pesquisas. Lula (PT) recuou, apenas sua rejeição cresceu.

Caro leitor, não brigue com os números.

A esquerda tentou jogar o escândalo no colo dos adversários (quem lembra da hashtag "#bolsomaster"?), mas o eleitor não comprou.

José FucsPor que Flávio Bolsonaro decolou no Datafolha?

Por que Flávio Bolsonaro decolou no Datafolha?

Mônica BergamoLula dá guinada em críticas e quer poupar o STF

Lula dá guinada em críticas e quer poupar o STF

Josias de SouzaAlma penada de Aras ronda o gabinete de Gonet

Alma penada de Aras ronda o gabinete de Gonet

Aline SordiliIA encolhe porta de entrada para o mercado de trabalho

IA encolhe porta de entrada para o mercado de trabalho

Nas redes sociais, Gleisi Hoffmann, ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais do governo, publicou: "O que será mesmo que o bolsonarista Valdemar [Costa Neto] do PL quer investigar sobre o Master numa CPI? A corrupção de dirigentes do BC nomeados por Bolsonaro nas mutretas de Vorcaro? A responsabilidade do governador bolsonarista Ibaneis [Rocha, do DF] na compra de papéis podres do Master pelo BRB?". Numa entrevista posterior, a ex-presidente do PT acrescentou: "Me parece que há muito mais explicações a serem dadas pela oposição do que pelo governo".

Lindbergh Farias, líder do PT na Câmara, também tentou emplacar a tese nas redes sociais: "O Nikolas [Ferreira, do PL-MG] tinha uma proximidade muito grande com o Vorcaro, com a família Vorcaro. Tanto é que ele está no celular do Vorcaro". Em outra declaração, disse que "o Vorcaro surge da Igreja Lagoinha, aquela do Nikolas, do Valadão. O cunhado dele, aquele Fabiano Zettel, foi o maior doador individual da campanha tanto do Tarcísio quanto do Bolsonaro."

Fabiano Zettel, pastor da Igreja da Lagoinha e cunhado de Vorcaro, foi o maior doador individual da campanha de Bolsonaro em 2022, com R$ 3 milhões, e doou mais R$ 2 milhões para Tarcísio de Freitas. Nikolas Ferreira pegou carona em jatos de Vorcaro, mas nega que soubesse quem era o dono.

Diversos influenciadores de esquerda, muitos disfarçados de analistas, cometeram artigos furibundos em que diziam que "o escândalo do Master é de direita!". Quando você lê (ossos do ofício, infelizmente), a argumentação é uma mistura pouco inspirada do que disseram Gleisi e Lindbergh com uma lista de políticos do centrão, estes claramente enrolados até o pescoço nas investigações.

Para a esquerda mais radical e ideológica, "centrão" é sinônimo de direita. Não é.

O grupo conhecido como centrão ganhou o epíteto na Assembleia Constituinte de 1987. Eram parlamentares fisiológicos, normalmente eleitos em grotões, sem cores políticas definidas, que lutavam por emendas, cargos e verbas públicas para seus interesses paroquiais. O grupo também atuava como um colchão entre os lados mais radicais da política.

Entra governo, sai governo, o centrão está grudado no poder, como cracas no casco de navios.

Desde então, o bloco esteve na base de todos os governos da redemocratização: Collor/Itamar, FHC, Lula, Dilma, Temer, Bolsonaro e Lula de novo. Nenhuma exceção. Aliado hoje, oposicionista amanhã, sempre ao sabor do vento político.

Gilberto Kassab, presidente do PSD e um dos principais operadores do time, definiu a "ideologia" de seu partido como "nem de esquerda, nem de direita, nem de centro." Seu partido tem de bolsonaristas a lulistas, tem três pré-candidatos à presidência e, na prática, não tem nenhum.

O centrão muda para não mudar.

Se vê como o adulto na sala, que entra como moderador quando os emocionados saem do controle e atrapalham os negócios. Quando Dilma afundou a economia brasileira, o centrão entrou em campo, articulou o impeachment e completou seu mandato, arrumando a bagunça deixada pela economista e "mãe do PAC", de triste lembrança.

Bolsonaro passou décadas como um deputado federal do mais baixo clero e disse, com todas as letras, que era "centrão". Na presidência, deu a Ciro Nogueira (PP-PI), um dos nomes mais citados no escândalo do Master, nada menos que a Casa Civil e a articulação política. O nefasto orçamento secreto é um legado desse governo, assim como a PEC Kamikaze, entre outras aberrações legislativas.

Ciro Nogueira era o "grande amigo de vida" de Vorcaro e articulou uma emenda para ampliar a cobertura do fundo garantidor dos depósitos do banco. Antonio Rueda, chefão do União Brasil, também chama atenção da Polícia Federal nas investigações que estão só começando.

Lula voltou ao Planalto e deu poder, emendas milionárias e ministérios ao centrão. Tudo como dantes no Quartel de Abrantes.

Do lado da esquerda, Guido Mantega recebia R$ 1 milhão por mês como consultor e articulava reuniões entre Vorcaro e Lula fora da agenda oficial. Jaques Wagner indicou o escritório da família de Ricardo Lewandowski, ex-ministro da justiça de Lula, que recebeu mais de R$ 6 milhões em honorários.

Sem o PT da Bahia, sem o Credcesta, talvez o Banco Master sequer existisse. Gleisi, Lindbergh e seus "analistas" esqueceram de mencionar.

O escândalo também não é exclusivo da esquerda, mas a direita, até agora, está jogando parada e deixando o governo se desgastar sozinho. O bolsonarismo apenas colocou sua linha auxiliar, o Novo, para cutucar o STF, mas nada além disso.

As investigações, repito, estão apenas começando.

Segundo apuração da colunista do UOL Carla Araújo, apenas 30% de um dos celulares de Vorcaro tiveram o conteúdo vazado. Estamos ainda no primeiro capítulo de um romance de mais de mil páginas.

A tentativa da esquerda de rotular tudo isso como escândalo de direita tem um precedente histórico.

Josef Stálin, da União Soviética, foi o primeiro a instrumentalizar o uso de rótulos ideológicos como arma de destruição política em massa.

Nos anos 30, o Kremlin declarou que socialistas moderados europeus eram a "ala esquerda do fascismo." Era uma tática para expurgar rivais internos. Em julgamentos encenados, líderes históricos da revolução soviética foram forçados a confessar que trabalhavam para Hitler.

O próprio Stálin assinou um pacto de não agressão com Hitler em 1939, mas como ele definia as regras do jogo, o jogo mudou. A propaganda "antifascista" foi suspensa da noite para o dia. A palavra "fascista" desapareceu da imprensa soviética. Voltou apenas em 1941, quando Hitler invadiu a URSS, quando ser de direita voltou a ser atacado.

Desde então, "direita", "extrema direita" ou "fascista" se tornaram apenas xingamentos vazios de significado, direcionados a qualquer um ou qualquer ideia que a esquerda não goste no momento. Se passar a gostar, por qualquer motivo, volta a ser "progressista".

São palavras que perderam completamente o sentido fora da briga política mais rasteira (se você quiser uma boa discussão sobre o tema, fora do framework de esquerdistas acadêmicos como Norberto Bobbio, recomendo "O Grande Debate", de Yuval Levin, "Conflito de Visões" do Thomas Sowell, e "A Política da Fé e a Política do Ceticismo", de Michael Oakeshott).

A pesquisa Meio/Ideia, divulgada nas últimas horas, mostra como o escândalo está sendo percebido pela opinião pública. Entre os eleitores informados sobre o caso, 35% associam o escândalo ao STF. O governo federal aparece com 21,3%. O Congresso, com 17,9%. E 25,8% respondem: todos os Poderes da República.

Setenta por cento de quem acompanha o caso afirma que o STF perdeu totalmente a credibilidade. O eleitor, como alertei no artigo "A direita encontrou seu discurso e ele funciona", associa a corte ao "sistema" e, por extensão, a Lula. Muitos analistas agora estão convergindo para esse mesmo ponto.

Se o lulismo quer mesmo parar de sangrar com o escândalo do Master e virar essa página, deve parar de apontar dedos e colaborar com as investigações.

O "sistema" precisa entregar, o mais rápido possível, algum resultado concreto para a opinião pública, cortando na própria carne, doendo em quem tiver que doer. Ou seguir apanhando nas pesquisas.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.

Ta na hora de deixar de assinar esse site...  

Faustão faz rara aparição ao ser homenageado pelo genro: 'Cara fantástico'

Justiça de SP proíbe empresa de comercializar princípio ativo do Ozempic

CPI do Crime Organizado quebra sigilos do cunhado de Vorcaro e de Sicário

Argentina ré por injúria racial troca de defesa e admite crime, diz jornal

Ministro do esporte do Irã diz que país não disputará a Copa do Mundo


© UOL