Para que o presente tenha futuro
Uma sociedade contemporânea sem cultura é um pesadelo distópico. A cultura garante, desde a antiguidade, que a História tem um presente e que o presente tem um futuro. É a alma coletiva que mantém uma sociedade unida.
Péricles promoveu a arte e a literatura, e fez de Atenas o centro cultural e educacional da civilização helénica. Em Itália, a Renascença acordou a Europa da Idade das Trevas, com os Medici e as inovações na arte, ciência e filosofia, dando início à era da exploração e à revolução científica que talhou o mundo moderno. Contudo, a massificação da cultura só ocorre com a revolução industrial que permitiu a fusão entre a criatividade cultural e a inovação tecnológica. O alfabeto fora inventado em tempos imemoriais, a impressão de livros no século XV, mas foram as novas invenções (a prensa rotativa, a gravação musical, o cinema, a rádio e a televisão) que alargaram o espectro e a escala, chegando de forma acessível todas as camadas da população, ao mesmo tempo que a educação se ia democratizando.
Hoje, estamos confrontados com uma nova revolução tecnológica com impacto nos equilíbrios sociais, com um conflito entre os obscurantismos religiosos daqueles a quem os nossos hábitos e costumes incomodam e os nacionalismos e populismos que, a pretexto de defenderem os nossos valores civilizacionais, querem tolher a diversidade.
É neste tempo agreste, em que a intolerância, o medo e a amoralidade vão cavando a sepultura das nossas liberdades, que as políticas e os investimentos tangíveis e intangíveis na cultura – no sentido mais lato – adquirem urgência, se queremos contrariar a normalização da incivilidade.
A cultura pode não ser suficiente, mas é necessária para contrariar o fundamentalismo religioso, a xenofobia e a ignorância militante. Paulo Cunha e Silva defendia que a «condição contemporânea resulta da articulação entre o local e o global». De facto, a contemporaneidade preserva a identidade ao cruzar-se com outra, impedindo as fragilidades que resultam da consanguinidade cultural e da gentrificação, gerando uma relação social mais solidária e resiliente face a intolerâncias e preconceitos.
Para criar este binómio, que constitui um cosmopolitismo iluminado mas não pasmado, é necessário despertar o espírito escondido na lâmpada de Aladino – a criatividade latente na sociedade – mobilizando indivíduos visionários e organizações criativas, apostando numa política cultural mais determinada do que determinista, envolvendo todos os territórios, evitando a guetização das comunidades deprimidas e das populações imigrantes.
A cultura, ligada umbilicalmente à educação, é a forma mais eficiente e agregadora de atenuar as descontinuidades sociais e territoriais e de impedir a exclusão e todos os riscos que lhe estão associados.
Há mais de vinte anos, Eduardo Prado Coelho escrevia que «nesta era em que as lutas de classes são substituídas por lutas de identidades, há uma resistência em nome das identidades culturais. (…) Só que a resistência coloca mal o problema: é preciso construirmos a identidade cultural em termos da indústria cultural para assegurarmos a proliferação das diferenças em termos de identidades culturais nacionais ou étnicas».
Goste-se ou não, a nossa sociedade já não tem (ou voltará a ter) homogeneidade cultural. Neste cenário, o acesso à cultura constitui-se como um elemento de ligação, mas também um elemento de desligação, na medida em permite descortinar que há mais mundos – o que inspira a confiança na nossa herança e o respeito pela diferença. E isso deve converter todos, até aqueles que têm preocupações securitárias, à necessidade de apostar na cultura e no conhecimento. l
Nota: Este texto resume parte da minha intervenção no recente fórum ‘PORTO. Regresso ao Futuro: 1996 – 2001 – 2026’, na Casa da Música
