Um ministro pão pão, queijo queijo
Ao fim de dois anos de Governos AD, o primeiro-ministro e líder do PSD_faz um balanço muito positivo de praticamente todas as áreas do Executivo, num elogio coletivo que soa a vitupério. E que, naturalmente, foi de imediato subscrito, ou melhor, até reforçado pelos seus subordinados no Governo e nos partidos que o sustentam na Assembleia da República. É normal, é da praxe – com raríssimas e dignas exceções.
Claro que, como também é dos costumes, a Oposição faz avaliação diametralmente oposta.
Ora, como o povo é quem sempre tem a razão, no meio estará a virtude.
Basta, aliás, ler ou escutar as mais recentes intervenções dos dois mais relevantes líderes sociais-democratas vivos.
Ainda que dissonantes sobre a forma – ou os meios – para as concretizar, um crítico Pedro Passos Coelho viu Aníbal Cavaco Silva, destacado apoiante da liderança de Luís Montenegro, vir dar-lhe razão na necessidade de se implementarem as reformas absolutamente indispensáveis para o país conseguir revitalizar a sua economia e crescer mais do que a maioria dos Estados-membros da União Europeia, para convergir e sair de um marasmo que só tem contribuído para o agravamento da pobreza nacional.
Empurrar com a barriga e manter contas públicas equilibradas à custa de cativações e de investimento público zero não é receita. Nem atirar dinheiro para cima dos problemas sem critério nem estratégia de futuro.
Essa foi a única marca que ficou dos oito longos anos de Governos de António Costa, com e sem ‘geringonça’. A gestão do poder pelo poder. Sem um desígnio para o país, sem um rumo coletivo.
Nas palavras de Passos e de Cavaco, mesmo que desafinadas ou em tons manifestamente diferentes, está subjacente a mesma crítica: estes dois anos de Governos de Montenegro, mutatis mutandis, foram mais do mesmo.
Penalizando o país e a sua população. E, sobretudo, as gerações vindouras.
É preciso um abanão neste país de inércias. Falta estratégia e rumo. E, por isso, são tão urgentes as reformas que Passos e Cavaco têm vindo a apontar.
Se Passos teve as mãos atadas pela herança da troika, Cavaco é um exemplo do que Portugal foi capaz de crescer e convergir aproveitando os fundos europeus e promovendo investimento público para alavancar a economia e garantir a convergência (e o país nunca convergiu com a Europa como nos anos do cavaquismo). Cavaco tinha objetivos claros para o país e uma estratégia e um rumo. Ou seja, o seu «deixem-nos trabalhar» não era um chavão de mera propaganda política.
E é o que continua a fazer-nos falta.
No Governo de Luís Montenegro, e ainda que mal se dê por ele na bolha mediática sentenciadora, há, porém, um ministro que, com a discrição que o caracteriza, lá vai levando a água ao seu moinho, enfrentado as polémicas em que se vê ou é envolvido com uma frontalidade invulgar e desarmante para os seus detratores: Fernando Alexandre.
O titular da sempre difícil pasta da Educação foi dos primeiros a levar a cabo no seu dinossáurico Ministério as propostas de reorganização e restruturação preconizadas pelo seu colega da Reforma do Estado, Gonçalo Matias. Sem apelo nem agravo e com ao menos aparente tranquilidade.
Como tem vindo a melhorar a organização e modo de funcionamento das escolas, comunicando diretamente com elas.
Mesmo a questão da revisão das Aprendizagens Essenciais tem decorrido sem grande alvoroço, tirando a infeliz resposta à hipótese de Saramago deixar de ser de leitura obrigatória – com efeito, dizer que a proposta contempla a opção por outro autor comunista (Mário de Carvalho) não é aceitável. Saramago não deve ser de leitura obrigatória por ser comunista, mas por ser o único Nobel português. Assim como Camões ou Pessoa não podem deixar de o ser pelo que representam na História da Literatura portuguesa e mundial. As questões ideológicas ou doutrinais não podem ser o critério. Nem para a Direita, nem para a Esquerda!
No mais, como na revisão curricular, Fernando Alexandre tem apresentado resultados.
É óbvio que ainda há muito caminho a percorrer – os programas continuam desajustados e demasiado extensos para a exigência que se pretende do ensino público e a repartição de professores face às necessidades das escolas continua com graves desequilíbrios (o próprio denunciou que, se há escolas com professores a menos, também as há com professores a mais), mas o ministro tem dado passos certos e seguros.
E a Educação, ainda que aos poucos, está a mudar para melhor.
mario.ramires@nascerdosol.pt
