A música como ponto de partida
O efeito que a música tem sobre nós manifesta-se sob muitas formas. E é incrível o poder que tem em nós. Da companhia que nos faz quando nos sentimos sozinhos, da proximidade quando estamos longe, da magia de nos conectarmos com alguém através dela e da força com que se apresenta. A força das melodias e o impacto das letras. Quantas vezes não sentimos que determinadas palavras foram escritas para nós? Que representam na perfeição o que estamos a sentir ou a passar? É um pouco assim na saúde ou na doença, para o bem e para o mal como se de um casamento se tratasse, daqueles que perduram para sempre. Quando estamos tristes, mais sozinhos, um pouco perdidos ou a passar uma fase menos boa procuramos sons mais melancólicos e profundos, assim um pouco como a chuva que nos bate na janela e que nos carrega o peso do frio que precisa de ajuda para superar. Quando estamos mais bem dispostos, felizes e apaixonados procuramos géneros diferentes, mais vivos e animados com outras estruturas rítmicas.
Não sei viver sem ela, admito, como não sei viver sem a minha família ou os meus amigos. Faz parte de mim desde que me conheço. Desde o tempo em que ouvia o meu Pai tocar viola e piano lá em casa. Em que me punha a ouvir as musicas numa aparelhagem que a minha avó me trouxe de Macau, com um caderno à frente, para conseguir decifrar as letras para ele cantar. Desde esse tempo também me punha a escrever as minhas próprias letras e talvez ou eventualmente tenha sido também por isso que criei este gosto pela escrita. Aprendi a refugiar-me nela, a sonhar através dela e a projetar-me em diversas situações e momentos com alguma banda sonora especial. Depois veio o piano, a seguir a bateria e passados uns anos o djing. Tudo reflexo desta conexão que me puxa pelos melhores sentimentos e me faz voar como poucas coisas o fazem.
Conheço muita gente que se começou a relacionar, trocando as primeiras impressões acerca das suas faixas preferidas, pessoas que se aproximaram e se juntaram a ouvi-la em conjunto e que se divertiram e divertem muito na partilha deste ou daquele tema. Já o cantor português Rui Veloso dizia: ‘Não se ama alguém que não ouve a mesma canção’. No fundo porque elas traduzem a nossa forma de ser e de estar, o nosso comprometimento em relação aos outros e ao mundo e as nossas próprias batidas rítmicas que quando alinhadas se aproximam dos momentos perfeitos que todos procuramos. E é fantástico de perceber que muitas vezes, associamos certos timings e acontecimentos das nossas vidas, a este ou aquele som, que se encontrava bem presente naquele preciso momento ou época. Tenho músicas que me ligam a pessoas, que me fazem lembrar outras e que me transportam para a minha infância ou adolescência. E normalmente representam tempos bons que gostamos de recordar com carinho.
A música é ponto de partida para quase tudo o que podemos descobrir e é companhia perfeita para o sítio onde queremos chegar. Uma das melhores coisas da evolução da sociedade é conseguirmos ter acesso a todas as faixas que queremos em segundos. Conseguir escolher as que mais gostamos e organizá-las por caixinhas segundo as nossas fases. Termos à mão o que precisamos de ouvir sem ter que ir procurar o cd, a cassete ou o vinil. Num tempo em que como diz o escritor Mia Couto: ‘Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação e nunca foi tão dramática a nossa solidão’, podermos ter a sorte de nos ligarmos a ela e o prazer de encontrarmos alguém que seja ponto comum é um privilegio. Quando aquela pessoa surge no meio da multidão e a música lhe dá sentido, como diria o meu querido Freddie Mercury, ‘it´s a kind of Magic’.
O Tejo Bar não é apenas um bar. É um espaço de multiculturalismo, de bom gosto e da partilha do prazer por essa música que descrevo acima. Não é por acaso que a cantora americana Madonna o escolheu como o seu sítio de eleição. O que se vive ali dentro é a plena comunhão de culturas e da diversidade dos sons através da empatia que vem do improvisado palco. Para quem não se contenta com pouco e aprecia o que é especial, convido a visitar o cantor Jon Luz e amigos e a assistir a momentos verdadeiramente imperdíveis. No Beco do Vigário n.º1 em Alfama.
Uma música para dançar no fim de semana:
