menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Stanley Kubrick e o complexo do Minotauro

6 0
19.02.2026

Especialista diz em que parte do corpo não deve pôr creme Nivea da lata azul

Na famosa e muito repetida asserção de Italo Calvino, «um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer». Lembrei-me desta frase enquanto me preparava para ver pela enésima vez The Shining, o clássico de terror de Stanley Kubrick baseado no romance homónimo de Stephen King. Por mais vezes que os veja, os filmes de Kubrick costumam revelar-me a cada nova exibição um qualquer detalhe em que não tinha reparado e que enriquece a sua leitura. Mas neste caso, depois de tantas revisões, duvidei que isso pudesse acontecer.

A história conta-se em poucas linhas: Jack Torrance é contratado para tomar conta de um hotel nas montanhas do Colorado, o Overlook Hotel, durante os meses do inverno. Instala-se confortavelmente com a mulher e o filho no enorme edifício. Como as tarefas lhe deixam muito tempo livre, dedica-se a escrever um livro.

Na entrevista para o lugar, Jack dissera ao empregador que a solidão não seria um problema. Mas a realidade é bem diferente. Os distúrbios psicológicos provocados pelo isolamento começam a tornar-se cada vez mais evidentes. E além disso o hotel tem um historial sangrento - o homem a quem alguns anos ocupara o mesmo cargo que a Jack enlouquecera e assassinara a família.

Como já referi, nada disto para mim era novidade. E estava convencido de que, embora rever o filme não deixasse de ser um prazer, não estava destinado a aprender nada de novo. Até que houve algo que me chamou a atenção num plano que mostra uma das salas do hotel: as imponentes colunas vermelhas. Onde é que eu já tinha visto aquilo? A existência de um labirinto de buxo no exterior do edifício dava-me uma pista. Claro, as colunas vermelhas lembravam as do Palácio de Cnossos, em Creta.

Fiz uma primeira pesquisa por Cnossos + The Shining. Nada. Por Palácio de Cnossos + Overlook Hotel. Nada. Mas o paralelo parecia indiscutível. Tento perceber se Kubrick alguma vez visitou Creta. Nada.

Até que vou consultar Kubrick - An Odissey, de Robert P. Kolker e Nathan Abrams, considerada a mais abrangente e atualizada biografia do realizador. E descubro que Kubrick, em 1953, fundou uma empresa a que chamou Minotaur Productions Inc. «Com o argumento [do seu segundo filme] em mãos, Kubrick precisava de uma nova produtora independente para produzir e financiar o filme», escrevem Kolker e Abrams. «Teve várias ideias antes de se decidir pela Minotaur Productions Inc. O Minotauro, metade homem, metade touro, um monstro sagrado e oculto que habita o Labirinto, tornar-se-ia uma metáfora recorrente na sua carreira. O labirinto poderia muito bem sugerir a condição do realizador, pelo menos naquele momento da sua vida. […] Desenhou e encomendou um papel timbrado oficial para a empresa, e autoproclamou-se presidente da Minotaur».

Acerca do Overlook Hotel, o livro não faz menção às colunas vermelhas nem a Cnossos e, quanto a influências literárias, são enumerados Freud, Kafka, Kafka, Conrad, Schnitzler e Bettelheim. Nada do mito do Minotauro.

Talvez não seja abusivo, ainda assim, ver no Overlook Hotel uma imagem do gigantesco Palácio de Cnossos, e em Jack Torrance uma encarnação do Minotauro, o monstro devorador de homens que foi encerrado no labirinto fronteiro ao palácio. Quanto ao tema do final, é obviamente edipiano...

E bom, não deixa de ser curioso que, no complexo do palácio cretense, existia uma Ala dos Machados Duplos, com representações de machados nas paredes.


© SOL