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Tempo para desarmar a linguagem

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22.02.2026

O capricho dos calendários traz uma coincidência no patamar religioso. À semelhança de 2025, a Quaresma coincide, em grande parte, com o Ramadão. De 18 de fevereiro a 2 de abril, os cristãos vivem 40 dias especiais até ao início do tríduo pascal, de 6.ª-feira santa a domingo de Páscoa. Com oração, jejum e caridade, são chamados a recordar os 40 dias de Jesus no deserto e os 40 anos do êxodo judaico, segundo as narrativas bíblicas. Na tradição cristã, é um caminho de renovação e conversão, um exercício de metanoia, a transformação interior, a mudança de mentalidade. O conceito é similar à interpretação benevolente da jihad, uma palavra mal cotada devido ao fundamentalismo islâmico. Na tradição islâmica, o Ramadão, que assinala a entrega divina do Corão ao profeta, é entre 17 de fevereiro e 18 março, no 9.º mês do ano 1447, pelo calendário islâmico. Os fiéis renovam-se com caridade, fraternidade, aproximação familiar e jejum literal, da alvorada ao pôr do sol. É um ‘mês ardente’, para queimar o supérfluo.

Nos primeiros dias do Ramadão de 2025, Francisco corria risco de vida no hospital. A comunidade islâmica local anunciava orações pela recuperação do Papa Bergoglio e, vista na praça de S. Pedro, a lua crescente, 6% iluminada, colocava-se no zenit da basílica, ladeando a cruz cimeira na cúpula. Ecoava o gesto de Francisco, que assinou com o imã de Al-Azhar a Declaração sobre a Fraternidade Humana, defendendo o diálogo, clarificando que não é lícito instrumentalizar religiões «para incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego». O pulsar religioso agarra o cíclico desenrolar das rotinas para abrir caminhos de oportunidade, discernimento e recomposição. Na última mensagem de Quaresma, dois meses antes da morte numa 2.ª-feira de Páscoa, Francisco questionava a vivência concreta da Esperança: «Ajuda a ler os acontecimentos da história e impele a um compromisso com a justiça, a fraternidade, o cuidado da casa comum, garantindo que ninguém fica para trás?». Não se entendam as palavras de um Papa em tempo de Quaresma como austera retórica moralista. Este período apela a um dinamismo espiritual e de consciência que vai além do contexto religioso. Repõe o foco na essência relacional, ética e ecológica. No hemisfério norte, atravessa estações para trazer a fertilidade primaveril, coincide com uma reparação natural, o retorno dos dias, o encurtamento das noites. No dealbar dos animismos, era já o tempo da vida nova, da recompensa.

Se em Portugal estas têm sido semanas para reler o apelo de Francisco - «que ninguém fique para trás» -, a 1.ª mensagem de Quaresma de Leão XIV visa a beligerância verbal. O Papa Prevost convida a «uma forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o próximo». Leão, que desafiou a humanidade a «uma paz desarmada e desarmante», sugere que se comece «por desarmar a linguagem, renunciando a palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de que, está ausente e não se pode defender, às calúnias». E especifica. Há que medir as palavras «na família, entre amigos, no local de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, na comunicação social, nas comunidades cristãs». O apelo à conversão vai além da hermenêutica religiosa, dá a entender, diz respeito «à consciência do individuo, mas também ao estilo de relações, à qualidade do diálogo, à capacidade de se deixar interpelar pela realidade e reconhecer o que realmente deve orientar o desejo». Há que cuidar da palavra e das palavras, dar tempo à escuta para ouvir «o grito dos pobres que interpela as sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja.»


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