Quero levar-te à lua hoje
«Reid, Victor, Christina e Jeremy: Nesta missão histórica, levam convosco o coração desta equipa Artemis, o espírito ousado do povo americano e dos nossos parceiros em todo o mundo, bem como as esperanças e os sonhos de uma nova geração. Boa sorte. Boa sorte, Artemis 2. Vamos lá», disse a diretora da missão espacial Charlie Blackwell-Thompson no dia do lançamento.
Esta proeza americana – à qual outros países estão associados, recordemos que entre os quase 50 países contactados para desenvolver os microsatélites de acompanhamento, a Argentina foi um dos quatro selecionados, juntamente com a Coreia do Sul, a Arábia Saudita e a Alemanha – remete-nos também para a epopeia da conquista da Lua. Em múltiplos aspetos, aliás: para além do sonho espacial, a Artemis II é uma resposta americana às ambições – lunares, mas não só – da China, tal como o programa Apollo foi uma mensagem para a União Soviética. Donald Trump acelerou o ritmo de um programa que visa levar o homem à superfície lunar antes do fim do seu segundo mandato, no início de 2029.
Apenas um quinto dos que vivem hoje na Terra tinha nascido a 20 de julho de 1969, a história merece, portanto, ser recontada. É preciso lembrar, nomeadamente, que apenas passaram doze anos entre o lançamento, a 4 de outubro de 1957, do primeiro satélite pelos soviéticos, e o «grande passo para a humanidade» de Neil Armstrong. A resposta fulgurante dos Estados Unidos após o ‘momento Sputnik’ – para os mais novos: esta expressão refere-se ao choque e à perceção de atraso tecnológico que os Estados Unidos sentiram quando a União Soviética lançou com sucesso o Sputnik 1, o primeiro satélite artificial da Terra, em 4 de outubro de 1957. O evento marcou o início Corrida Espacial durante a Guerra Fria – mostra que nada está nunca perdido.
Em 1957, o Presidente norte-americano Eisenhower tentou minimizar a humilhação: «Eles lançaram uma bolinha ao ar». Anos mais tarde num discurso no Congresso, a 25 de maio de 1961, Kennedy anunciou o objetivo de pisar a Lua «antes do fim da década».
Porque nos interessa fazer esta reflexão? Não apenas pela beleza das imagens partilhadas pelos astronautas ou pelo fascínio científico da missão, interessa-nos porque a Europa vive um prolongado ‘momento Sputnik’ que se iniciou com a anexação ilegal da Crimeia e culminou a 24 de fevereiro de 2022 com a invasão da Ucrânia e ao qual ainda não reagiu.
Desde a entrada de carros de combate russos em solo ucraniano até hoje o Velho Continente mudou muito, mas não o suficiente. A ameaça de Putin não desapareceu – e hoje sabemos como a Rússia soube construir uma teia de agentes e infiltrar cavalos de Troia no coração da Europa, veja-se o caso paradigmático do ministros dos negócios estrangeiros húngaro Péter Szijjártó – o caos trumpiano, entre tarifas, a Gronelândia, e ameaças de saída da NATO, assim como a irrelevância europeia no Médio Oriente são sinais preocupantes. Seria injusto no entanto não dizer que há uma tomada de consciência. Há, mas nas basta. O rearmamento europeu, embora lento, está em curso. E os grandes países europeus estão a reconhecer erros estratégicos. Os britânicos, por exemplo, consideram agora, segundo as sondagens, que o Brexit foi um erro que lhes custou no total, 8 % do seu PIB, segundo o instituto americano NBER. A Velha Albion descobriu o seu amor pela Europa e talvez volte um dia, embora não seja assim tão simples. Berlim redescobre a energia nuclear e França faria bem em olhar para o seu défice.
Pensemos nas palavras utilizadas por J.F. Kennedy perante o Congresso a 25 de maio de 1961: «É o momento de dar passos maiores – é o momento para uma grande e nova empreitada americana, tempo de esta nação assumir claramente um papel de liderança na conquista espacial, que, em muitos aspetos, poderá deter a chave do nosso futuro na Terra. Acredito que possuímos todos os recursos e talentos necessários». Quando é que teremos um ‘momento Kennedy’ europeu?
Analista de assuntos internacionais e risco geopolítico, Lecturer
