Lisboa e o risco sísmico: o que já se avaliou é uma fração mínima do problema
Quando se fala do risco sísmico de Lisboa, a memória atira-nos quase sempre para o dia 1 de novembro de 1755: É uma memória incontornável, mas também cómoda: permite pensar o sismo como um episódio do passado, como algo que se passou num passado longínquo e não como um risco presente sobre um parque edificado lisboeta que, na sua esmagadora maioria, continua por avaliar e cujo risco desconhecido. Os números que a própria Câmara Municipal de Lisboa tem vindo a publicar mostram precisamente isso.
A CML criou em 2021 o Programa ReSist, que visava promover a da resiliência sísmica do parque edificado, privado e municipal e das infraestruturas urbanas municipais. Em quatro anos, o ReSist avaliou a vulnerabilidade de 1593 edifícios habitacionais, um trabalho que a própria CML divulgou neste ano de 2026. Mas o detalhe mais importante, e que tende a ser desvalorizado, é que estes edifícios estão todos em bairros municipais, ou seja, são património camarário... Não refletem o grande e complexo universo dos prédios privados da cidade, ou seja, onde vive a esmagadora maioria dos lisboetas.
A dimensão desse universo dá a medida do que ainda falta avaliar. Segundo os Censos 2021, existiam no concelho de Lisboa 49223 edifícios, entre residenciais e não residenciais, o que corresponde a uma densidade de cerca de 492 edifícios por quilómetro quadrado. Destes, 8.322 tinham mais de 100 anos, ou seja, foram construídos antes de 1919, portanto antes de qualquer norma antissísmica portuguesa (!)...
A fragilidade estrutural de muitos edifícios lisboetas construídos antes da entrada em vigor do Regulamento de Segurança e Ações, de 1983, continua a ser uma das maiores preocupações neste domínio e inclui uma parcela maior do que aquela que o ReSist avaliou. Com efeito, segundo os Censos, a maior parte do parque edificado da capital foi construída entre 1946 e 1960, período em que ficaram concluídos cerca de 12 mil imóveis. Cruzando com estes números, isto significa que quando o ReSist avaliou a vulnerabilidade sísmica de 1593 edifícios habitacionais em bairros municipais, estava apenas a ver menos de 4% do total de edifícios da cidade!
E há ainda uma nuance que nos obriga a alguma cautela: os prédios municipais são, na sua maioria, posteriores a 1983, pelo que a taxa de vulnerabilidade do parque privado mais antigo é provavelmente bastante superior à que os primeiros resultados do programa sugerem. A esta avaliação soma-se ainda uma preocupação que nos chega recorrentemente de moradores das freguesias históricas: reabilitações........
