Doja Cat e a doença que ninguém quis ver
A recente partilha da artista Doja Cat sobre a possibilidade de sofrer de Lipedema fez mais do que gerar manchetes, trouxe finalmente visibilidade a uma condição que durante décadas foi ignorada, desvalorizada ou confundida com algo meramente estético.
Quantas mulheres ouviram ao longo da vida que tinham “celulite”, que precisavam de “fechar a boca” ou “fazer mais exercício”? Quantas internalizaram culpa por um corpo que não respondia a dietas nem a rotinas exigentes? O lipedema vive precisamente neste espaço de incompreensão, onde a medicina nem sempre chega a tempo e o julgamento chega cedo demais.
Não estamos a falar de um detalhe cosmético. O lipedema é uma doença crónica, progressiva e frequentemente dolorosa, marcada por uma acumulação desproporcional de gordura, sobretudo nas pernas e coxas, muitas vezes acompanhada de sensibilidade ao toque, hematomas fáceis e sensação de peso constante. Ainda assim, continua a ser confundido com obesidade ou celulite, atrasando diagnósticos e perpetuando sofrimento silencioso.
O mais inquietante é que esta invisibilidade não é acidental, é estrutural. Afeta maioritariamente mulheres e, como tantas outras condições femininas, foi durante anos subinvestigada, subdiagnosticada e, em muitos casos, descartada. A normalização da dor e do desconforto no corpo feminino continua a ser um problema real.
É por isso que o testemunho de figuras públicas como Doja Cat tem um impacto que vai muito além da esfera mediática. Ao dar nome a sintomas que tantas reconhecem, abre-se espaço para perguntas, identificação e, sobretudo, validação. De repente, aquilo que parecia uma falha individual passa a ser entendido como uma condição médica.
Em Portugal, esta conversa ganha ainda mais força pelo vínculo recente da artista ao público nacional, após ter encerrado o Rock in Rio Lisboa 2024. A proximidade amplifica a mensagem e cria uma oportunidade rara, transformando curiosidade em literacia em saúde.
Mas atenção, visibilidade não é sinónimo de resolução. É apenas o primeiro passo. É urgente investir na formação de profissionais, melhorar o acesso ao diagnóstico e promover abordagens multidisciplinares que devolvam qualidade de vida a quem vive com lipedema. Mais do que tratar, é preciso reconhecer.
Porque durante demasiado tempo, o corpo falou e, ninguém o escutou.
Jesús Olivas Menayio é Diretor Clínico do Instituto Português do Lipedema by MS Medical Institutes.
