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A indignação europeia: emoção, estratégia ou poder?

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15.01.2026

Nos últimos anos, tornou-se habitual ouvir os líderes europeus a expressarem indignação moral perante os grandes choques da política internacional. Essa indignação, frequentemente ancorada em valores legítimos, soberania, direito internacional, multilateralismo, corre, porém, o risco de se tornar um lamento impotente.

Numa ordem internacional em mudança, cada vez mais moldada pelo poder, pela tecnologia e pela lógica estratégica da força, a indignação sem ferramentas transforma-se em mera retórica. É muito barulho para nada, muito fumo, pouco fogo, é uma Europa gigante com pés de barro. A verborreia normativa desacompanhada de poder real instalou-se. Seja em italiano, “can che abbaia non morde”, em francês “beaucoup de bruit pour rien, em inglês “all bark and no bite” ou alemão “viel Lärm um nichts”, o paradoxo do nosso Continente é claro: a Europa continua a falar a linguagem das normas, mas o mundo regressou à linguagem do poder. A questão central já não é se os valores europeus são correctos, são seguramente, mas se a União Europeia dispõe das capacidades necessárias para os defender num contexto de choque entre grandes potências.

Esta saga que tem vindo a rodear a Gronelândia expôs brutalmente esse mesmo desfasamento. A insistência dos Estados Unidos, sob liderança de Donald Trump, na ideia de que a ilha deveria ser “possuída” por Washington, inclusive com referências a opções militares, não foi apenas uma provocação diplomática. Foi uma afirmação explícita de puro interesse estratégico. A Gronelândia é um território autónomo da Dinamarca, aliada da NATO e parte da comunidade transatlântica. Ainda assim, a reacção europeia limitou-se essencialmente a declarações de princípio: soberania, autodeterminação, Carta das Nações Unidas. Linguagem forte, instrumentos fracos. A crítica não é aos valores, mas à ausência de meios. Como advertia há dias o diplomata Stéphane Hessel, a indignação só é politicamente relevante quando se converte em acção. Caso contrário, degrada-se em ruído moral, facilmente ignorado por quem dispõe de poder real. A questão mantém-se, se os EUA ocuparem a Gronelândia o........

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