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A politização da indústria farmacêutica e os novos riscos estratégicos globais

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23.02.2026

Durante décadas, a indústria farmacêutica global operou num enquadramento relativamente previsível, assente em estabilidade regulatória, separação entre decisão política e avaliação científica e mercados capazes de recompensar inovação de longo prazo. Esse equilíbrio deteriorou-se progressivamente após a crise financeira, acelerou durante a pandemia e, em 2025, entrou numa nova fase estrutural: a política passou a influenciar diretamente preços, investimento, cadeias de produção e estratégias empresariais. O risco dominante do setor deixou de ser científico ou tecnológico e tornou-se institucional.

Os Estados Unidos ilustram esta mudança de forma particularmente clara. A reintrodução da lógica de “Most Favoured Nation pricing”, destinada a alinhar preços de medicamentos com os valores mais baixos praticados internacionalmente, passou de proposta política a instrumento negocial concreto. A criação da plataforma TrumpRx, apresentada como voluntária, funcionou na prática como mecanismo de pressão direta sobre a indústria, levando as empresas a aderirem sobretudo como estratégia de mitigação de risco regulatório e reputacional. Em paralelo, a utilização recorrente de tarifas sobre importações farmacêuticas introduziu volatilidade adicional num setor profundamente dependente de cadeias globais de abastecimento.

O impacto tornou-se evidente nos mercados financeiros: ao longo de 2025, a valorização das empresas farmacêuticas reagiu mais a anúncios políticos do que a resultados clínicos. A previsibilidade institucional, historicamente responsável por horizontes de investimento longos e custos de capital mais baixos, deixou de poder ser assumida como garantida.

A instabilidade foi agravada pelo enfraquecimento operacional das agências reguladoras norte-americanas. O anúncio de até 10.000 despedimentos no Department of Health and Human Services teve impacto direto na FDA, traduzindo-se em atrasos de aprovação, adiamento de advisory committees e elevada rotatividade de liderança. Dado o papel da agência como referência normativa global, a sua fragilização aumenta custos de compliance e contribui para a fragmentação regulatória internacional.

A adaptação da indústria a este novo contexto tornou-se visível na estrutura interna das empresas. Os despedimentos observados em 2025 deixaram de refletir ajustes pós-pandemia e assumiram caráter estrutural. Empresas do top 10 mundial anunciaram reduções significativas de pessoal, frequentemente concentradas em funções administrativas e regulatórias, em hubs tradicionais como New Jersey. O padrão sugere preparação para ciclos de aprovação mais longos, maior interferência política e margens potencialmente mais pressionadas.

Em paralelo, o mercado de fusões e aquisições manteve elevada atividade, mas com um racional distinto do observado em ciclos anteriores. Operações lideradas por Johnson & Johnson, Novartis, Sanofi, Merck e Pfizer, com transações entre cerca de 9,5 e 14,6 mil milhões de dólares, refletiram uma lógica predominantemente defensiva: preencher lacunas de pipeline, acelerar “time to market” e reduzir exposição à incerteza regulatória. Num ambiente instável, adquirir inovação tornou-se uma estratégia de proteção, não de expansão agressiva.

Neste contexto, a Europa encontra-se perante uma encruzilhada estratégica. A aplicação do princípio MFN cria incentivos para reduzir investimento na Europa ou pressionar preços locais, aumentando a tensão sobre os sistemas de saúde europeus. Porém, a crescente imprevisibilidade norte-americana abre simultaneamente uma oportunidade rara para o continente se afirmar como espaço de estabilidade institucional.

Essa oportunidade exige, antes de tudo, uma mudança de paradigma: reconhecer a inovação farmacêutica como ativo estratégico; um investimento com valor clínico, económico e social. Não apenas um custo orçamental. O acesso rápido ao mercado de terapias inovadoras beneficia diretamente os doentes, aumenta a competência clínica e constitui simultaneamente um dos principais determinantes da localização de investimento em I&D. Sistemas que atrasam decisões de acesso, reduzem benefício clínico e afastam ensaios clínicos e oportunidades de investigação.

Se a Europa conseguir alinhar avaliação científica rigorosa com decisões de acesso mais céleres, criar mecanismos eficazes de “fast track” para investigação europeia e desenvolver modelos de reembolso que valorizem a inovação comprovada,  poderá transformar a previsibilidade numa vantagem competitiva global. Num setor cada vez mais condicionado pelos riscos políticos, a estabilidade regulatória e rapidez de acesso podem tornar-se os principais ativos estratégicos europeus. Mum setor crítico, líder no investimento global em inovação, destinando 19% da sua receita à I&D. Em 2025, o mercado deve movimentar US$ 1,6 triliões, com custo médio de US$ 2,23 biliões por cada novo medicamento descoberto. O investimento em fabrico nos EUA ultrapassou US$ 370 biliões. A projeção é de aumentar 28% o investimento em I&D em 2026. Junto com o setor de TI’s, responde por mais da metade do investimento em pesquisa a nível mundial.

A indústria farmacêutica entrou numa fase em que a solidez institucional pesa tanto quanto a inovação científica. Para a Europa, ignorar esta realidade não é prudência. É abdicar de uma oportunidade estratégica num momento de redefinição global do setor.


© Sapo