Ódio à poesia
Certa vez, num festival de literatura em Huelva, patrocinado por uma marca de enchidos, havia um cortador de presuntos ao meu lado a exercer a sua profissão* (que, à época, não sabia existir), a mesa dele colada à minha, com todas as facas e uma grande perna de porco pronta a ser desnudada — lentamente — até ao osso. Aprendi muito sobre a conservação do presunto e os variados géneros de facas e seu uso, especialmente no que respeita ao local da peça a ser servido. Não sei se a combinação literatura/presunto é boa. É naturalmente dada à crítica literária fácil: encher chouriços (poupo assim a falta de criatividade dos mais biliosos, antecipando-me ao que poderiam considerar espirituoso). Eu gostei da experiência, quanto mais não fosse pela raridade do evento. Falar de poesia com um presunto ao lado é de facto um desafio: o presunto leva muita vantagem, mas a poesia pode, em alguns casos, perdurar muito mais.
Há, nestas coisas — no comércio mais simbiótico e menos surpreendente do que o caso mencionado antes, como por exemplo floristas/funerárias —, relações inusitadas que me fascinam. São um desafio. Se houver uma loja de candeeiros e outros objectos de iluminação eu consigo imaginar esse........
