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Uma resposta fraterna ao Galo de Luta

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16.04.2026

Pastor Zé Barbosa Jr escreveu carta resposta ao Galo de Luta abordando organização de trabalhadores precarizados, como motoboys.

O pastor analisa crítica à metáfora do futebol usada pelo Galo de Luta para descrever a esquerda, que pregava posições separadas.

Barbosa Jr argumenta que um time funciona porque posições existem entre si e o que afeta um afeta todo o grupo.

A lógica coletiva, segundo o pastor, não exige uniformidade, mas consciência de que todos estão no mesmo lado.

Querido irmão Galo de Luta,

Escrevo essa carta com respeito. Respeito pela sua trajetória, pela sua voz, pela sua luta — que não é pequena. Organizar trabalhadores precarizados, como os motoboys, exige coragem, disposição e um senso real de justiça. Isso precisa ser reconhecido antes de qualquer discordância.

Mas justamente por isso, porque sua voz tem peso, vale a pena olhar com mais cuidado para algumas ideias que você trouxe.

Você usou uma metáfora do futebol para falar da esquerda — disse que cada um deve jogar numa posição diferente e não se envolver tanto com as outras, como se isso fosse algo bom. Só que, no futebol de verdade, é exatamente o contrário. Um time só funciona porque existem posições diferentes que existem “entre-si”. O lateral não é o centroavante, o volante não é o goleiro — mas todos estão jogando o mesmo jogo. E mais importante: o que acontece com um, acontece com o time inteiro.

Se o zagueiro falha, o goleiro sofre. Se o atacante não marca, a pressão volta pra defesa. Se um jogador é perseguido ou expulso injustamente, o time inteiro fica mais fraco.

A lógica coletiva não exige que todo mundo seja igual — exige que todo mundo entenda que está no mesmo lado do campo.

Quando você pergunta por que um motoboy teria que “defender isso ou aquilo”, a questão talvez esteja mal colocada. Não se trata de um pacote obrigatório de ideias. Trata-se de entender que direitos não são compartimentos isolados. Hoje é o preconceito contra um grupo. Amanhã, pode ser contra o seu.

Quando um trabalhador aceita que outro seja desrespeitado, ele abre um precedente perigoso — porque o sistema que precariza um, precariza todos. A história mostra isso com clareza.

Outro ponto importante é a forma como você fala sobre pessoas LGBT. Usar termos ofensivos, mesmo dizendo que “é assim que o trabalhador fala”, não resolve o problema — só reforça divisões. O trabalhador também aprende, evolui, muda linguagem. Respeito não é coisa de elite, é base de qualquer luta coletiva.

Sobre o pastor Henrique Vieira, há uma incompreensão que precisa ser corrigida.

A ideia de que um pastor só é “de verdade” se tiver uma igreja lotada, com palco, microfone e multidão, é mais próxima de um modelo empresarial de religião do que do evangelho. Aliás esse argumento é exatamente o que a extrema-direita tenta usar para “desqualificar” o pastor Henrique no Congresso.

Mas precisamos pensar que: Jesus não teve uma megaigreja. Não tinha templo próprio. Pregava em sinagogas pequenas, em praças, em beiras de estrada, em territórios periféricos. Falava com gente simples, marginalizada, excluída.

Se o critério for tamanho de plateia, então o próprio Jesus não passaria no seu teste e nem da bancada evangélica.

Henrique Vieira pode não representar o tipo de liderança religiosa que você está acostumado a ver — midiática, grandiosa, cheia de espetáculo — mas isso não o desqualifica como pastor. Pelo contrário, pode aproximá-lo de uma tradição mais antiga, mais enraizada na simplicidade e no cuidado com pessoas.

E quanto à ideia de que “pastor não defende LGBT”, vale lembrar: o papel de um pastor não é escolher quem merece dignidade. É cuidar de gente. De toda gente.

No fundo, Galo, a sua indignação tem um ponto legítimo: ninguém gosta de ser encaixado à força em rótulos ou agendas. Mas a resposta para isso não é rejeitar o outro — é ampliar a compreensão do coletivo.

Nem todo mundo precisa pensar igual. Mas todo mundo precisa entender que está jogando no mesmo time.

E talvez aqui caiba uma última reflexão, feita com sinceridade: você tem força, tem voz, tem influência. Em alguns momentos, ouvir mais e falar menos pode abrir caminhos que o grito não alcança.

Isso não diminui sua luta. Só a torna mais potente.

Seguimos no mesmo campo — mesmo que em posições diferentes.

Zé Barbosa Jr – pastor de gente

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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