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Carnaval: O que a Globo não quis mostrar e Damares fez questão de inventar

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17.02.2026

Acadêmicos de Niterói homenageou Lula no carnaval, gerando reações de silenciamento na transmissão da Globo e críticas de Damares Alves.

Damares Alves acusou a escola de samba de crime eleitoral e ataque à fé evangélica, alegando uso de verba pública para ridicularizar a igreja e o agronegócio.

A TV Globo foi criticada por supostamente silenciar partes do desfile que mencionavam Lula, enquanto Damares Alves interpretou alegorias como ataques religiosos.

A escola de samba defendeu seu enredo como uma representação da história do Brasil sob a perspectiva do povo, em meio a debates sobre política e liberdade de expressão no carnaval.

Há dois carnavais acontecendo no Brasil. Um deles passou na avenida, com bateria afinada, arquibancada lotada e o povo cantando a plenos pulmões. O outro aconteceu numa transmissão seletiva e numa live indignada. O primeiro foi o da Acadêmicos de Niterói; o segundo, o do silenciamento da Globo e imaginação editorial da Damares Alves. Curiosamente, foi esse segundo que ganhou contornos de escândalo.

Segundo a senadora, a escola teria cometido um “crime eleitoral” com verba pública, promovendo campanha antecipada e, de quebra, ridicularizando a igreja evangélica e o agronegócio. Nas palavras dela, uma ala chamada “neoconservadores em conserva” seria um ataque direto aos fiéis — latas como metáfora de crentes enlatados, perseguidos, escarnecidos.

O problema é que, nas imagens transmitidas ao vivo pela TV Globo, nada disso apareceu. O que se viu foram fantasias de latas com imagens de famílias estampadas — um recurso alegórico que, para quem conhece minimamente a linguagem do carnaval, pode significar muita coisa: conservadorismo social, padronização de comportamentos, crítica à indústria cultural, ironia política. Carnaval não é catecismo ilustrado; é alegoria. E alegoria não vem com manual de instruções.

Mas Damares viu. Viu ataque à fé. Viu crime eleitoral. Viu zombaria institucionalizada. Viu um governo conspirando para humilhar evangélicos sob o pretexto de liberdade artística. Viu tudo — exceto o óbvio: o carnaval sempre foi político. Mas não vê no dia a dia que o que realmente ridiculariza o Evangelho é uma gama de pastores midiáticos ávidos por dinheiro e sacrificando o povo mais humilde, um eu-vangelho onde o individualismo capitalista sobrepõe o bem estar social e coletivo. Estranhamente, isso não parece escandalizar a Senadora.

O que a Globo não mostrou

Se houve algo realmente constrangedor naquela noite, não foi a criatividade da escola. Foi o silêncio constrangedor da transmissão. Quando o enredo tocou no terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, a narrativa televisiva ficou curiosamente econômica. Comentários rarearam. A letra do samba desapareceu. Detalhes se perderam. Câmeras desviaram com a elegância de quem evita contato visual num elevador lotado.

Este talvez seja um dos maiores problemas de monopólio/exclusividade na transmissão de eventos populares. A mídia hegemônica não controla apenas a imagem — controla a memória imediata do evento. O que entra no enquadramento vira história; o que fica fora vira ruído. E, na noite de ontem, o enquadramento foi seletivo. A edição também fala. O corte também opina. O silêncio também constrói sentido.

Mas há um detalhe que talvez tenha escapado ao cálculo editorial: o público estava lá. E a massa cantou. A arquibancada não depende de comentarista para entender samba. O povo aderiu ao enredo, abraçou a homenagem, repetiu versos como quem reivindica a própria narrativa histórica. Porque, goste-se ou não, a trajetória de Lula — do sertão nordestino à presidência da República — é matéria-prima legítima para o carnaval. Se já se homenageou monarcas, banqueiros, artistas, santos, orixás e até a própria televisão, por que um presidente eleito três vezes estaria interditado?

“- Ah, mas é ano eleitoral”, dirão alguns. Agora responda sinceramente: no Brasil, qual ano não é? Vivemos em permanente campanha (o que talvez seja uma falha do modelo eleitoral – que prevê eleições de 2 em 2 anos), permanente disputa de narrativa, permanente tensão ideológica. Exigir que o carnaval vire uma zona neutra asséptica justamente quando fala de política é pedir que a Mangueira desfile sem verde e rosa. A política atravessa o cotidiano — e o carnaval é o cotidiano em estado febril.

Se a Globo escolheu o silêncio estratégico, Damares escolheu o megafone. E o que fez com ele foi ainda mais curioso: transformou alegoria em perseguição religiosa. É aqui que a crítica deixa de ser apenas política e se torna perigosa. Confundir sátira social com ataque à fé é um expediente conhecido. Ele mobiliza indignação rápida, cria sensação de cerco e fortalece a ideia de que há um inimigo cultural à espreita. A escola ironiza “neoconservadores em conserva”; a narrativa converte isso em ataque direto à igreja evangélica.

Mas uma coisa é conservadorismo político; outra é fé religiosa. Misturar os dois pode até render engajamento nas redes, mas empobrece o debate. E há uma ironia adicional: ao afirmar que o governo teria aprovado conscientemente uma zombaria contra evangélicos, a senadora reconhece, sem querer, que assistiu atentamente a um desfile inteiro em busca de munição retórica. Enquanto milhares de jovens evangélicos estavam, segundo ela própria, em congressos e retiros louvando com alegria e saúde, Damares estava acompanhando alegorias carnavalescas frame a frame.

Talvez o verdadeiro “crime” tenha sido o da imaginação. E nesse quesito ninguém bate a extrema-direita. Inventar mentiras e espalhá-las é o seu esporte predileto.

Chamar Lula de “maior líder mundial” pode soar hiperbólico para alguns. Mas é inegável que ele ocupa um lugar singular na história recente. Operário, sindicalista, preso político, presidente em três mandatos. Figura central nas articulações do Sul Global. Personagem amado e odiado com igual intensidade — o que, no Brasil, é quase certificado de relevância histórica. Isso não o torna imune a críticas. Mas o torna, sim, digno de enredo.

Carnaval é memória popular. É o espaço onde a história oficial encontra a narrativa da favela, da periferia, do trabalhador. Se a Acadêmicos de Niterói decidiu celebrar essa trajetória, fez o que as escolas sempre fizeram: contar o Brasil a partir do ponto de vista de quem samba.

A Globo pode até ter tentado modular o volume. Damares pode ter tentado reescrever o roteiro. Mas a bateria não obedece a enquadramento, e o povo não canta sob censura. No fim das contas, o que ficou não foi o corte da câmera nem a live indignada. Foi o coro. Foi a adesão espontânea. Foi o samba que atravessou a avenida e ecoou para além da transmissão.

O carnaval que a Globo não mostrou estava lá — inteiro, vibrante, político como sempre foi. E o carnaval que só Damares viu talvez diga mais sobre os fantasmas de quem o enxergou do que sobre as fantasias que efetivamente desfilaram.

Porque, no Brasil, o povo pode até ser silenciado na edição. Mas na avenida, ele sempre encontra um jeito de cantar.

Por Pastor Zé Barbosa Jr

*Este artigo não representa, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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