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“Deus, Lata e Família!” – Pastor Zé Barbosa Jr

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19.02.2026

Artigo critica a "indústria da fé" que instrumentaliza a religião e a ideia de família para fins políticos e mercadológicos.

O desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval expôs a apropriação política da fé, gerando reação conservadora que defende um "Deus enlatado".

A crítica não é à fé evangélica em si, mas à sua transformação em produto, com a imposição de um modelo de família conservador e excludente.

O autor defende a liberdade da fé, questionando a mercantilização da espiritualidade e a instrumentalização religiosa para fins de poder.

Neste Carnaval, o desfile da Acadêmicos de Niterói provocou mais do que aplausos, críticas e debates estéticos. Tocou numa ferida exposta da sociedade brasileira: a apropriação política da fé e a tentativa de sequestrar a ideia de “família” como se fosse marca registrada de um único grupo religioso. A reação conservadora — inflamada, previsível e amplamente difundida nas redes — revelou algo mais profundo do que indignação moral. Revelou um projeto. Um projeto que, há anos, trabalha para enlatar Deus.

A imagem pode parecer forte, mas é precisa. Enlatar Deus é reduzi-lo a um produto padronizado, com rótulo, slogan e prazo de validade ideológica. É transformá-lo em mercadoria religiosa pronta para consumo imediato, vendida em prateleiras dominicais, promovida em vitrines digitais, distribuída em bancadas parlamentares. Um Deus portátil, acionado conforme a conveniência política do momento. Um Deus de bolso, que cabe no palanque e se adapta ao algoritmo.

Não se trata aqui de atacar a fé evangélica — plural, diversa, cheia de contradições e também de experiências profundas de espiritualidade e compromisso social. Trata-se de criticar a indústria da fé que prosperou à sombra do medo moral e da guerra cultural. Essa indústria construiu um modelo de “família enlatada”: pai provedor, mãe submissa, filhos obedientes, todos alinhados a uma agenda política conservadora. Um modelo vendido como único, natural e divino — quando, na verdade, é histórico, localizado e profundamente atravessado por interesses de poder.

Ao reagirem ao desfile da Acadêmicos de Niterói como se fosse uma afronta existencial, lideranças religiosas não estavam defendendo apenas valores espirituais. Estavam defendendo mercado. Porque a fé transformada em produto precisa de antagonistas constantes. Precisa de inimigos claros. Precisa de uma ameaça permanente para justificar sua própria existência enquanto mercadoria. O Carnaval, com sua irreverência, sua pluralidade e sua capacidade de inverter hierarquias, torna-se alvo perfeito.

O Deus enlatado não suporta ambiguidades. Ele não convive bem com a diversidade. Não aceita perguntas complexas. Ele precisa de respostas simples e rápidas, como as instruções impressas no verso de uma embalagem. Seu discurso é repetitivo, seus argumentos são recicláveis, suas indignações são sazonais. Hoje é a escola de samba; ontem foi o livro didático; amanhã será qualquer manifestação cultural que escape ao controle do púlpito.

Mas o que se vende não é apenas um Deus. Vende-se pertencimento. Vende-se identidade. Vende-se a sensação de segurança num mundo em transformação. Num país marcado por desigualdades históricas, violência urbana e crises políticas sucessivas, a promessa de uma ordem moral clara e inquestionável é sedutora. A lata oferece estabilidade: dentro dela, tudo está organizado, rotulado, conservado. Fora dela, há incerteza.

O problema é que, ao enlatar Deus, esvazia-se sua potência crítica. O Deus das tradições bíblicas — para ficar no universo cristão — é aquele que desestabiliza impérios, denuncia injustiças e confronta poderes estabelecidos. É o Deus que se recusa a ser manipulado por reis, que não cabe nos templos e que se manifesta nas margens. Transformá-lo em produto é neutralizá-lo. É retirar dele o incômodo e preservar apenas o que serve ao projeto político do momento.

Essa operação não acontece por acaso. Ela é cuidadosamente construída por meio de redes midiáticas próprias, formação teológica orientada e articulação institucional com partidos e bancadas legislativas. A chamada “defesa da família” torna-se plataforma eleitoral, slogan de campanha e critério de fidelidade religiosa. Quem questiona é acusado de inimigo da fé. Quem diverge é rotulado como perseguidor. Assim se cria um circuito fechado onde Deus legitima o poder e o poder protege o mercado da fé.

Há, porém, uma ironia nesse processo. Ao tentar impor uma única forma de família, esses setores ignoram a própria realidade das comunidades que frequentam seus templos. Famílias chefiadas por mulheres, lares recompostos, avós que criam netos, mães solo, pais desempregados, jovens LGBTQIA+ que continuam amando e crendo apesar da rejeição. A vida concreta desmente a embalagem. A experiência cotidiana rasga o rótulo.

O desfile da Acadêmicos de Niterói, ao tensionar essa narrativa, fez algo que o Carnaval faz de melhor: expôs o teatro do poder. Mostrou que a fé pode ser instrumentalizada. Revelou que há uma disputa simbólica em curso. E, sobretudo, lembrou que o espaço público não pertence a uma única teologia. Num Estado laico, crenças convivem, se confrontam e se transformam. Nenhuma delas pode reivindicar monopólio do sagrado.

Para o mundo progressista, o grande desafio é não zombar da fé alheia nem reforçar caricaturas. É compreender que a batalha cultural em curso passa por narrativas sobre Deus, família e moralidade. E é também reconhecer que muitos evangélicos — inclusive dentro de igrejas conservadoras — não se veem representados por essa lógica mercantil da fé. Há pastores, teólogas, lideranças comunitárias e fiéis comuns que resistem à redução de Deus a produto. Que insistem num cristianismo comprometido com justiça social, direitos humanos e democracia.

O Deus enlatado é conveniente porque é previsível. Ele apoia sempre as mesmas pautas, condena sempre os mesmos corpos, protege sempre os mesmos interesses. Já o Deus vivo — aquele que escapa às embalagens — é perigoso. Ele pode inspirar solidariedade em vez de exclusão. Pode gerar pontes em vez de muros. Pode questionar o acúmulo de poder religioso e político nas mãos de poucos.

No fundo, a reação conservadora ao desfile não é medo de uma escola de samba. É medo de perder o controle da narrativa. Porque, quando Deus deixa de caber na lata, ele volta a circular pelas ruas — inclusive pelas avenidas do Carnaval. E ali, entre batuques e fantasias, pode lembrar que o sagrado não é propriedade privada, nem marca registrada, nem produto com código de barras.

O Brasil precisa urgentemente abrir as latas. Não para destruir a fé, mas para libertá-la do mercado que a aprisiona. Porque uma espiritualidade transformada em mercadoria deixa de ser transcendência e vira estratégia. E estratégia, como sabemos, muda conforme a conveniência. Já a fé, quando não está enlatada (e a esquerda também precisa aprender isso), é capaz de surpreender, provocar e, quem sabe, libertar.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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