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Meritocracia, pós-meritocracia e o esvaziamento da escola: a herança educacional dos golpes

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18.03.2026

Ditadura militar pós-1964 esvaziou disciplinas de humanas no Brasil, transformando História, Filosofia e Sociologia em "Estudos Sociais" para formar mão de obra obediente.

Governo Temer implementou o Novo Ensino Médio com "itinerários formativos" e disciplinas como Projeto de Vida, inserindo a racionalidade neoliberal nas escolas via BNCC.

O conceito de "pós-meritocracia" explica que, sem empregos garantidos, o sucesso é atribuído à sorte ou ao acaso, não ao esforço individual.

A Community Creators Academy em São Paulo exemplifica a adaptação educacional à lógica pós-meritocrática, formando influenciadores digitais como alternativa à escola tradicional.

No Brasil, todo golpe de Estado também traz consigo mudanças estruturais no sistema de ensino. Afinal de contas, é preciso apresentar aos estudantes a ideologia da nova ordem vigente. A ditadura militar pós-golpe de 1964 fomentou uma educação tecnicista e voltada para enaltecer valores supostamente patrióticos. O objetivo era formar mão de obra alienada, pronta para obedecer a ordens e não questionar o status quo. Assim, disciplinas na área de humanas – Geografia, História, Filosofia e Sociologia – foram esvaziadas e transformadas em “Estudos Sociais”.

Do mesmo modo, o governo interino de Michel Temer, posterior ao golpe contra Dilma Rousseff, promoveu grandes mudanças educacionais. No entanto, diferentemente da época da ditadura militar, a subjetividade esperada do corpo discente não é mais a do “patriota”, mas sim ligada à racionalidade neoliberal.

Nessa lógica, o “Novo Ensino Médio” foi além do esvaziamento das ciências humanas. Criou novas disciplinas, conhecidas por “itinerários formativos”, sob o argumento de tornar o currículo mais flexível e personalizado, permitindo ao aluno aprofundar conhecimentos em áreas de interesse, preparando-o para o mercado de trabalho ou ensino superior.

No entanto, essa “preparação para o mercado de trabalho” significa a racionalidade neoliberal adentrando oficialmente as matrizes curriculares. Disciplinas como Projeto de Vida e Mundo do Trabalho nada mais são do que apologias ao atual momento do capitalismo, priorizando competências socioemocionais úteis ao mercado. Além disso, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), focada na formação por competências e habilidades em detrimento da construção do conhecimento crítico, reforça a lógica meritocrática, ignorando desigualdades estruturais, e o sucesso escolar é visto apenas como resultado do esforço individual.

Já o avanço das novas tecnologias no mercado de trabalho torna os empregos cada vez mais escassos. Consequentemente, o discurso do “capital humano”, que apregoa o esforço nos estudos como possibilidade de ascensão social, independentemente de outros condicionantes, perde consistência. Como pensar no esforço individual se não há trabalho?

Dessa forma, para além da meritocracia, surge aquilo que o professor Wilson Ferreira conceitua como “pós-meritocracia”. Em vez de enfatizar o esforço e a capacidade, como na narrativa meritocrática, a pós-meritocracia parte do princípio de que o sucesso pode ser alcançado através da sorte ou do acaso, em apostas online, investimentos na bolsa de valores ou “empreendendo” como “influencer digital”. Um passe de mágica.

Assim, o anteriormente mencionado mito do capital humano é superado no contexto da pós-meritocracia. A escola, portanto, deixa de ter sentido ou, no máximo, deve ser adaptada à nova realidade.

Não por acaso, coachs mirins têm viralizado nas redes sociais ao incentivarem jovens a abandonar a escola para focar em enriquecimento rápido, marketing digital e vendas online. Para eles, estudar é perda de tempo, matérias como Matemática e Português são inúteis.

Por outro lado, a adaptação das instituições de ensino à lógica pós-meritocrática tem como exemplo emblemático a “Community Creators Academy”, um centro de formação para influenciadores e criadores de conteúdo digital, localizado na cidade de São Paulo.

Segundo Fabio Duarte, idealizador da “primeira universidade de criação de conteúdo do Brasil”, “a criação de conteúdo está virando uma grande ‘skill’ valorizada pelo mercado. Antes se exigia datilografar, Pacote Office, inglês. Hoje a criação de conteúdo e a IA são ‘skills’ importantes para a aceleração de qualquer carreira”.

Não se trata de uma simples questão de tradução. Qualquer semelhança entre a “skill” da “Community Creators Academy” e as “habilidades” da BNCC não é mera coincidência. Isso representa os setores público e privado atuando em favor da racionalidade neoliberal – seja em sua forma “meritocrática” ou “pós-meritocrática”.

Longe de representar uma ruptura com a racionalidade neoliberal, a pós-meritocracia é sua radicalização: se o mérito já não garante a ascensão, que reste ao indivíduo a aposta na sorte, no desempenho midiático ou na especulação financeira. A responsabilidade pelo sucesso ou fracasso, porém, continua sendo exclusivamente sua.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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