A viagem que os livros inventam
Ler é sair de si. Sempre foi. Desde que Platão nos advertiu que as palavras escritas são sombras de ideias — frágeis ecos de uma verdade que se deve viver e não apenas decifrar — o leitor tornou-se viajante por necessidade. O livro é uma caverna aberta: nele, acendemos a luz e vemos dançar as figuras que nos habitam. A leitura é, pois, o gesto de quem se atreve a caminhar em direção à claridade, sabendo que talvez não exista saída — apenas mais profundidade.
Um livro é um território sem cartografia possível, porque todo o mapa seria sempre um gesto de redução. Quando lemos, não avançamos sobre o texto: é o texto que se desloca em nós, que nos percorre com a delicadeza de uma força antiga. Reordena o pensamento, desarruma o que tomávamos por certo e, nesse movimento, constrói uma nova geografia interior. A leitura é uma forma de metamorfose: transforma-nos enquanto acreditamos dominá-la. José Saramago compreendeu esse paradoxo........
