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Venceu a desrazão e o despotismo da ignorância e da demagogia de feira

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16.04.2026

Este debate entre a razão histórica e a arrogância emproada, fruto do atrevimento ignorante e institucionalizado no senso comum, tinha tudo para dar errado. Quando Pacheco Pereira acedeu a confrontar a verdade (do pensamento metódico e construído por milhares de páginas de vida e de história escrita que lhe reconhecemos) contra o arrivismo do tal jovem de "46 anos", formado na escola do senso comum favorável à crítica mal fundamentada e arruaceira, estava a admitir (sem o querer) a sua derrota.

Dito isto, estamos em condições de dizer que Pacheco Pereira conduziu bem o debate pelo seu lado? Também aqui temos dúvidas. Caro Pacheco Pereira, com André Ventura não se pede licença para falar, fala-se sem rodeios e incertezas. Com André Ventura é possível passar ao discurso moralista? Nunca! Também aqui Pacheco Pereira esteve menos bem, quando ensaiou essa posição no final do debate.

Dou apenas um exemplo de como tudo esteve mal do ponto de vista metodológico. Pacheco Pereira argumentava que não era possível comparar 1926-1974 com 1974-1976. Tem razão. Mas não pelos argumentos que apresentou. Sim, por outros. Havia que separar os dois períodos de transição – o de 1926-1933 e o de 1974-1976 – do outro período, dito de Estado Novo, de violência institucionalizada – nas prisões, nas torturas, nos tribunais, na censura. São períodos completamente diferentes. Nos primeiros ocorre um processo revolucionário, embora de sinal diferente: em 1926-1933, inicia-se a implantação de um regime autoritário e fascizante. Em 1974-1976 implanta-se um regime democrático – para uns de democracia social, para outros de democracia formal constitucionalizada. São diferentes entre si, estes dois períodos de transição, porque um implanta a liberdade e o outro reduz as liberdades ao mínimo e implanta uma Ditadura definitiva.

Mas… são também diferentes na natureza do período de 1933-1974, com ditadura institucionalizada e fascista, particularmente nas décadas de 30 e 40.

Logo, Pacheco Pereira, era por aqui que tínhamos de começar. E aqui rebatia-se o “Relatório de Sevícias” pela raiz. Especialmente se se contrapusesse o que aconteceu nestes dois períodos de transição. Só para que se saiba: entre 1926 e 1931, no tal período de transição, a Ditadura foi responsável por cerca de 10 mil prisões política e sociais, por mais de 240 mortos, por mais de 1200 feridos e por mais de 3000 deportados. E aqui estão apenas contabilizados os resultados mais directos das Revoltas contra a Ditadura. Não estamos a ter em conta a repressão brutal sobre o mundo sindical, sobre os partidários dos partidos ilegalizados e sobre o associativismo.

São estes dois períodos de transição que são comparáveis, com a diferença de que em um se implanta a Ditadura e noutro a democracia e as liberdades.

O outro período? O de 41 anos de Estado Novo, com violência institucionalizada? Esse só pode ser comparado com os 50 anos de democracia que temos, extraindo daí o tumultuoso (apesar de tudo pacífico, comparado com a “pacífica” transição espanhola) período da transição de 1974-1976.

Era difícil dizer isto num programa televisivo de uma hora? Talvez não, atrevo-me a dizer. É apenas um problema de ataque metodológico ao problema da falsa comparação, que Pacheco Pereira não conseguiu ilustrar o suficiente.

Depois… há muitos outros erros não desfeitos por Pacheco Pereira, e eu sei que ele sabe muito bem que são erros. Simplesmente não foi possível desmenti-los, perante a picareta arrogante que tinha na sua frente.

Sejamos corajosos – como Pacheco Pereira foi. Mas sejamos sensatos e deixemos de acreditar que é possível contrapor a verdade num discurso televisivo de uma hora e, para mais, em frente de alguém apostado no facilitismo dos argumentos sem sustentação, sem enquadramento, sem explicação

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Por exemplo: alguém pode comparar as prisões de dias ou meses de 1974-1976 com as prisões sucessivas (cinco no caso do preso X, dez no caso do preso Y), sempre por delito de opinião, durante a Longa Noite? Alguém pode comparar essas prisões com as prisões longas de 10, 15, 20 anos que muitos sofreram? Alguém pode comparar a violência (mesmo no RALIS, em Caxias ou em Custóias) com a violência brutal da "ilha-prisão" do Tarrafal, onde alguns permaneceram em isolamento uma década, mesmo 15 ou mais anos?

Outro erro: as prisões nunca foram comandadas por membros do Governo da Ditadura, afirmava Ventura para contrapor às prisões ocorridas no PREC. É falso. São em número incalculável os presos e deportados “à ordem do governo”, sem qualquer interferência de órgãos judiciais (militares ou civis), ou tão só "separados" para a deportação através de processos sumários e formais. Do ministro do Interior (que por vezes foi Salazar) dependeram milhares de prisões (e libertações também). Tudo despótica e cruelmente executado. Pena que não se saiba. Julgo que a memória da Ditadura tem ficado muito acantonada aos últimos dez ou 15 anos do Estado Novo. Um erro. Isto porque, quando falamos de Estado Novo e de Ditadura, estamos a falar de algo que se iniciou pelos anos de 1926-1928, altura em que Salazar é convidado pelos militares para conduzir o processo ditatorial por eles iniciado. Saberão alguns (mas não todos) que dois terços das prisões de toda a Ditadura foram feitas na primeira fase, de 1926 a 1948. Saberão alguns (mas não todos) que dois terços dos assassinatos políticos da Ditadura foram perpetrados no mesmo período. Quando alguém refere "três Salazares", é deste Salazar que fala (ou pensa falar).

Sejamos corajosos – como Pacheco Pereira foi. Mas sejamos sensatos e deixemos de acreditar que é possível contrapor a verdade num discurso televisivo de uma hora e, para mais, em frente de alguém apostado no facilitismo dos argumentos sem sustentação, sem enquadramento, sem explicação.

Houve um momento em que Pacheco Pereira teve inteira razão – à sua frente estava um misto de ignorância e demagogia. Faltou acrescentar: credibilizado pelo facto de ser chamado a dizer mentiras como verdades no “grande écran”.


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