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O tempo em que os meus pais davam boleias a estranhos

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11.03.2026

— Oh Fernando, para o carro!

— Já vi. Abre o vidro.

— O senhor vai para onde?

— Meninos, cheguem-se mais uns aos outros para deixar entrar o senhor.

Viajar de carro na década de 1980 era toda uma aventura. Ir da serra da Estrela até casa dos meus tios em Miranda do Corvo parecia-me uma travessia épica. A estrada era longa, sinuosa e cheia de peripécias. Parávamos porque alguém vomitava, porque a minha mãe tinha de lavar a roupa que sujáramos, numa fonte, ou simplesmente porque a vida ainda não tinha pressa, e o meu pai queria admirar algo, chamando-nos a apreciar uma cotovia baloiçando num ramo.

Não havia telemóveis, nem tablets, nem playlists. Rádio ligado, que se retirava para colocar debaixo do assento do pendura para não ser furtado, assim que chegássemos ao destino. Havia pai e mãe impacientes com eles próprios, mas cheios de amor por nós, um rádio com dificuldade em sintonizar frequência e a pergunta universal das crianças desde a invenção da roda. “Já chegámos?” Repetida em loop. De vez em quando, lá se colocava uma cassete do Roberto Carlos com letras que me faziam todo o sentido. “Meu Cadillac, bi-bi. Quero consertar meu Cadillac…”

O carro era um Mini azul. Um milagre da engenharia mecânica, porque lá dentro cabiam quatro filhos, pai, mãe, avó materna e, ocasionalmente, um desconhecido recolhido à beira da........

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