menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A esquadra do Rato e a aporofobia

20 0
08.05.2026

Em Outubro de 2024, um homem em situação de sem-abrigo foi violado com um cassetete dentro de uma esquadra da PSP em Lisboa. Mais tarde, descobriram casos semelhantes e ainda mais graves com vítimas com diversos graus de pobreza e exclusão. Os vídeos foram filmados pelos próprios polícias e partilhados num grupo de WhatsApp com cerca de 70 membros. Nenhum dos colegas que recebeu os vídeos fez nada durante meses. Até hoje, vários agentes da PSP foram detidos no que o Ministério Público descreve como um padrão sistemático de tortura sobre pessoas escolhidas a dedo pelo seu grau de vulnerabilidade: pessoas em situação de sem-abrigo (PSSA), pessoas com dependência por drogas, migrantes sem documentos. Pessoas que, segundo a acusação, eram seleccionadas precisamente porque não iam a lado nenhum. Porque ninguém ia acreditar.

O caso da esquadra do Rato é muita coisa ao mesmo tempo. É um caso de violência policial grave que o sistema judicial está, ao ritmo habitual, a tentar processar. É um caso sobre a cultura de impunidade que cresce quando as hierarquias fecham os olhos e os colegas ficam em silêncio. Mas é também, e principalmente, um caso sobre quem se escolhe para vítima quando se quer fazer algo sem consequências. E a resposta a essa pergunta tem um nome que em Portugal ainda não aprendemos a dizer: aporofobia.

A filósofa espanhola Adela Cortina cunhou o termo para descrever o medo, a repulsa e o ódio dirigidos especificamente às pessoas em situação de........

© PÚBLICO