Demasiado inteligentes para o nosso próprio bem?
“É estranho que esta coisa que é certa e comum a todos exerça quase nenhuma influência sobre os homens, e que estes estejam longe de se considerar irmãos na morte!”Nietzsche
Eis uma pergunta incómoda que atravessa a história do pensamento humano: e se aquilo que consideramos a nossa maior virtude for também a origem de muitas das nossas tragédias?
Desde cedo, aprendemos a celebrar a inteligência humana como o traço que nos distingue de todas as outras espécies. Foi a nossa inteligência que permitiu inventar a escrita, criar arte e ciência, construir cidades, atravessar e mergulhar nos oceanos e explorar o espaço. A História da Humanidade é contada como a história desse triunfo.
Basta olhar com alguma atenção para o presente para perceber que essa narrativa tem fissuras. Muitas.
A sofisticação tecnológica contrasta com a grande instabilidade moral e política; as guerras nunca saíram do centro da História e até se agravaram nos últimos anos; a empatia dissolve-se no estrépito das redes sociais; a infância é cada vez mais exposta a processos precoces de sexualização e consumismo; a atenção humana transformou-se num território disputado por plataformas que vivem da nossa dependência e a inteligência artificial ocupa espaços que há pouco tempo considerávamos exclusivamente humanos. O intelecto, afinal, não garante sabedoria.
Nietzsche percebeu cedo que o grande drama da modernidade não seria apenas a perda de certezas religiosas ou morais, mas aquilo que essa perda deixaria no seu lugar. Quando escreveu que “Deus está morto”, estava a descrever o colapso das estruturas de sentido que durante séculos organizaram a cultura ocidental. Sem essas referências, o ser humano ficaria entregue a uma tarefa exigente: criar valores.
Essa liberdade traz riscos. Nietzsche chamou-lhe niilismo, um estado em que os valores deixam de ter peso e em que a existência se torna, paradoxalmente, mais vazia num mundo cheio de possibilidades.
Esta é a tensão que atravessa o nosso tempo: nunca tivemos tanto conhecimento acumulado, tantas ferramentas tecnológicas e capacidade de intervenção no mundo e, no entanto, não parecemos saber muito bem o que fazer com tudo isso.
A inteligência humana permite-nos compreender a complexidade do Universo, mas também nos expõe a uma consciência aguda das fragilidades. Sabemos que somos mortais, que as nossas escolhas têm consequências globais e que os sistemas que criámos podem escapar ao controlo. Poucas espécies vivem com esse peso.
Quando olhamos para o mundo animal, vemos espécies que vivem há milhões de anos em equilíbrio relativo com o seu ambiente. Não constroem civilizações, é verdade, mas também não produzem armas capazes de destruir o planeta nem sistemas tecnológicos que transformam a atenção num campo de batalha permanente. Se esse equilíbrio das várias espécies hoje parece cada vez mais frágil, a causa não está neles. Está na pressão constante da espécie humana, que destrói habitats, altera ecossistemas e transforma outros seres vivos em recursos, transforma-os em seres cativos, espetáculo para gáudio humano.
A inteligência deu-nos um poder extraordinário sobre o mundo. O problema é que esse poder cresceu mais depressa do que a nossa capacidade de o usar com responsabilidade.
Nietzsche acreditava que o grande desafio da humanidade seria aprender a superar-se a si própria. Não através da dominação ou da força bruta, mas através da criação consciente de novos valores e de uma relação mais lúcida com a vida. Essa tarefa continua em aberto; séculos após séculos, parece que não aprendemos com os erros.
Numa atualidade marcada por guerras (cada dia, uma nova triste surpresa), polarização, radicalismos extremistas e dependência tecnológica, a questão essencial não é saber até onde nos levará a nossa inteligência. A questão é saber se estamos preparados para viver à altura dela.
Por isso vale a pena ler livros como Se Nietzsche Fosse um Narval – O que a inteligência animal revela sobre a estupidez humana, de Justin Gregg, que recupera esta pergunta incómoda com humor, ciência e alguma ironia filosófica. A Literatura será sempre uma das nossas maiores criações artísticas e salvações, quiçá para colocarmos a mão na testa com veemência e questionar: o que andaremos nós mesmos a fazer neste e com este planeta?
A inteligência humana é, sem dúvida, uma das forças mais extraordinárias da natureza, mas também uma das mais perigosas. Tardamos a aprender isto.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
