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A distopia na esquina de um centro comercial

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15.01.2026

Durante anos, lemos sobre isto em livros e vimos em filmes. Acreditámos que era exagero, ficção especulativa: a identidade reduzida a um código, o corpo transformado em chave e o olhar convertido em acesso.

Philip K. Dick escreveu mundos em que a fronteira entre humanos e máquinas se tornava indistinta. Em 1968, publicou Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? Adaptado ao cinema, em 1982, com o título Blade Runner, mostrou-nos sociedades nas quais a identidade precisava de ser testada e comprovada. No ano de 2002, surgiu o filme Relatório Minoritário, realizado por Steven Spielberg, a partir do romance homónimo que o escritor publicou em 1956. Aqui o reconhecimento ocular abre portas, ativa anúncios e vigia deslocações. Em 1984, de George Orwell, o controlo é omnipresente, ainda que invisível. Em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a engenharia social começa antes que o indivíduo tenha consciência de si.

Durante anos, lemos sobre isto em livros e vimos em filmes. Acreditámos que era exagero, ficção especulativa: a identidade reduzida a um código, o corpo transformado em chave e o olhar convertido em acesso.

Tudo isso parecia distante e cinematográfico. A literatura e o cinema dificilmente inventam do nada, apenas amplificam tendências, levam-nas até às últimas consequências para que possamos reconhecê-las antes que seja tarde.

Hoje, a distopia não chega em naves espaciais nem por meio de regimes totalitários; chega-nos em formato de uma banca discreta disposta em centros comerciais. Dois reluzentes “olhos” metálicos que nos espreitam com uma promessa de futuro:........

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