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Jeanne e as borboletas de Lalique

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saturday

Por volta de 1900, quando o nome de René Lalique começava a circular pelos cinco continentes com a autoridade discreta das coisas que aprenderam a ser desejadas, um industrial procurou-o para lhe fazer uma encomenda. As suas jóias, móveis, vasos e vitrais entravam nas casas da alta burguesia como se nelas introduzissem, mais do que um objecto, uma nova gradação da luz: a que repousa sobre o corpo e lhe pede, sem palavras, que se reconheça belo. O homem desejava um pente e uma escova de toucador em carapaça de tartaruga para a filha, Jeanne, uma jovem autista cuja beleza requintada lhe inspirava, ao mesmo tempo, orgulho, temor e uma espécie de devoção muda.

Acreditava-se então — e talvez ainda hoje, sob a crosta racional das nossas convicções, se continue a acreditar — que a tartaruga transmite ao corpo algo da sua paciência mineral, da sua longa tranquilidade, da arte antiga de avançar sem pressa através do mundo. A sua carapaça seria um mapa de duração: saúde, serenidade, longevidade. Quem a trouxesse consigo não adquiriria apenas uma matéria preciosa; tocava, ou julgava tocar, uma reserva de tempo mais lento, como se a vida pudesse enfim deter-se junto de nós e consentir ficar.

Jeanne tinha uns olhos muito azuis, vastos e aparentemente vazios, olhos que pareciam não devolver àqueles que a fitavam aquilo que deles recebiam. A cabeleira, de um louro acinzentado, caía-lhe até à cintura em ondas brandas, como uma água que tivesse esquecido o caminho do mar. Lalique viu-a duas vezes. Na primeira, quando acompanhou o pai à oficina, movendo-se entre as vitrinas e as mesas de trabalho com uma gravidade que não era timidez, mas talvez uma atenção voltada para regiões onde ninguém mais sabia entrar. Na segunda, a criada aproximou-se dela e colocou-lhe a travessa nos cabelos, enquanto o artista observava, em silêncio, o modo como a peça encontrava o seu lugar.

Havia na travessa quatro borboletas em relevo. Os seus corpos, de prata incrustada de pedras preciosas, cintilavam com uma vida quieta, semelhante à de certos insectos que permanecem imóveis sobre uma........

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