Izana e a Cabana dos muitos Fios
Izana foi uma das muitas kataribe – contadoras de histórias – que percorriam o Japão levando consigo contos, mitos e deliciosos episódios das vidas dos heróis. Morreu aos oitenta anos, depois de ter vivido cinquenta na corte dos Ashikaga. Era uma mulher de corpo amplo, voz grave e espessa, e caminhava devagar, como se cada passo tivesse de abrir caminho através de uma camada invisível de nevoeiro. Tinha uma filha, de pai incógnito, que a ajudava nas tarefas domésticas e lhe preparava as refeições quando voltava das suas viagens.
Izana aprendera a ler na corte do terceiro Shogun do período Muromachi. Ou, pelo menos, era essa a explicação que todos esperavam ouvir. Quando o senhor lhe perguntou um dia onde adquirira uma arte tão difícil, ela respondeu que fora no mercado, com os anúncios dos vendedores de fruta e legumes. As palavras, dizia, estavam penduradas entre nabos, maçãs, cabaças e peixe; era preciso apenas esperar que alguém as pronunciasse com a voz certa.
Quioto era então uma cidade embriagada de crisântemos, vinho e canções. Nas ruas, os homens discutiam poesia; nos jardins, as mulheres viam as folhas de ácer cair sobre os lagos; nos pátios interiores, as crianças perseguiam sombras de aves que ninguém conseguia apanhar. Izana gostava sobretudo de faisões e de lagos. Dizia que os faisões eram como frases de cores vivas, lançadas de repente no ar, enquanto os lagos eram livros fechados, guardando no fundo tudo aquilo que os homens julgavam ter esquecido.
A sua arte consistia em ligar uma história a outra. Falava de um guerreiro e, quase sem que ninguém desse por isso, aparecia uma rapariga que bordava uma flor num quimono; dessa flor nascia uma montanha; na montanha, um eremita; e do eremita saía uma palavra que o levava de novo à infância do guerreiro. O Shogun escutava-a em silêncio, cada vez mais feliz. Até que, certo dia, Izana lhe disse:
— Meu senhor, talvez devêsseis deslocar o vosso ofício da boca para a mão. Tudo aquilo que ouvistes pode permanecer convosco, mas será preciso oferecer-lhe........
