menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Bowie e o boomerang de Édipo

40 0
14.03.2026

Examinemos a mais famosa das tragédias atenienses, aquela que, desde a Poética de Aristóteles, tem sido considerada o exemplo de tragédia perfeita: Édipo Rei (Οἰδίπους Τύραννος – literalmente, Édipo, o Tirano). Neste texto infernal, imparável, verdadeira peça de maquinaria, onde cada verso, cada palavra, eriçada e borbulhante, pulsa em dolorosas ironia e ambiguidade, o rei é desmascarado como tirano e deposto como um monstro e testemunha de impureza pela própria cidade que o coroara. Mas recuemos um pouco.

Normalmente pensamos na tragédia como um infortúnio que acontece a uma pessoa ou a uma entidade política e que escapa ao seu controlo. Interpretando “tragédia” enquanto sinónimo de simples infortúnio, contudo, damos espaço a um significativo equívoco sobre aquilo que uma tragédia verdadeiramente é. O que as trinta e uma tragédias gregas sobreviventes encenam repetidamente não é uma desgraça que esteja fora do nosso controlo. Pelo contrário, elas mostram a forma como compactuamos, aparentemente sem o saber, com a calamidade que nos derruba.

A tragédia exige um certo grau de cumplicidade da nossa parte no desastre que nos destrói. Não se trata simplesmente de uma malévola actividade do destino, uma profecia sombria que flui da vontade insondável, mas muitas vezes questionável, dos deuses. A tragédia exige a nossa conivência com esse destino. Por outras palavras, exige uma boa dose de liberdade. É desta forma que devemos ler a tragédia de Édipo. Com implacável ironia (não por acaso, as duas primeiras sílabas do nome Édipo [Οἰδί] constituem um incrível decalque fonético da forma verbal “eu sei” [οἶδα]), vemos alguém partir de uma posição de aparente conhecimento – “Eu, Édipo, a quem todos chamam grande. Eu resolvo enigmas; qual parece, então, ser o problema, cidadãos?” – para uma verdade mais profunda que Édipo aparentemente desconhecia: ele é um incestuoso parricida. Nesta interpretação, avalizada por Aristóteles, a tragédia de Édipo consiste no reconhecimento que lhe permite........

© Observador