A biblioteca de Pisístrato às portas do Éden
Escrevo a 23 de abril, Dia Mundial do Livro. Deixo o olhar repousar sobre as lombadas alinhadas que me rodeiam, sinto nelas uma estranha combinação de precariedade e obstinação: são frágeis como tudo o que depende de mãos humanas – papel que amarelece, cola que cede – e, ainda assim, persistem com uma dignidade silenciosa que desafia o esquecimento. Mais do que ser lido, cada livro parece pedir para ser guardado como se guarda uma promessa, um fragmento de ordem num mundo propenso ao ruído e à dispersão. E talvez seja isso que mais me comove: saber que aquilo que mais importa – estas vozes encadernadas que perfuram o tempo – sobrevive não por necessidade, mas por devoção, como se a cultura, no seu gesto mais íntimo, dependesse sempre de alguém disposto a acreditar que vale a pena conservar o que não tem utilidade imediata, mas sem o qual nada de verdadeiramente humano subsiste.
A mais antiga biblioteca ocidental de que se tem conhecimento foi a do tirano Pisístrato, que procurou ansiosamente ao longo de toda a sua vida capturar os pensamentos de homens cujas almas livres e difusas nunca tinham antes sido controladas. Após a Batalha de Salamina, Xerxes levou-a para a Pérsia, juntamente com dois ou três pedagogos gregos que, em tardes de tédio, calor e limões, lhe explicavam versos e ditos de uma sabedoria que ele nunca chegou a compreender. Quando Seleuco Nicátor, rei da Síria e companheiro de Alexandre, a devolveu à Grécia, detectou-se que faltava ao acervo original um texto sobre perfumes e um outro sobre a arte do amor, como se os Persas estivessem convictos de que a única coisa que importa é saber o que as mulheres desejam e como lhes agradar. Sabemos por Ateneu que Platão e a sua obra contribuíram para enriquecer esta biblioteca, parte da qual chegou às mãos de Aristóteles juntamente com os poemas matemáticos de Filolau. Com a morte do mestre da Academia, os seus livros passaram a ser da responsabilidade de Teofrasto, que por sua vez os legou a Neleu de Scepsis.
Entretanto, no meio deste vaivém de filosofias, diálogos, códigos, poemas e crónicas, era quase impossível manter aqueles livros ilesos: estavam manchados de sangue e de vinho, palavras riscadas e corrigidas, e comentários marginais. As cartas mantiveram-se, apesar das convulsões da história, firmes nos seus artigos e verbos. Na hora da morte, Neleu pediu aos seus herdeiros que protegessem a biblioteca da dispersão e do fogo, e eles, para a protegerem das pretensões dos reis e dos tiranos – Neleu ainda se lembrava de que o primeiro deles, Pisístrato, a tinha reunido para impedir o conhecimento e não para o partilhar – não se lhes ocorreu nada melhor do que enterrá-la perto de Pérgamo. Escavaram de noite e transportaram os textos de madrugada, em cartuchos de couro e sacos de pano impermeabilizados. Para muitos, era como enterrar os cadáveres dos seus antepassados. Outros sentiam a rara e preciosa felicidade de guardar algo para um amanhã que não sabiam sequer dizer por não lhe conseguirem imaginar o alfabeto. Um geógrafo registou, pelo seu próprio punho, as características do local, de modo que anos mais tarde – anos trespassados por guerras e catástrofes como um dedo por um espinho – o académico Apellicons de Teios conseguiu comprar a biblioteca e usá-la para dar forma à primeira edição das obras de Aristóteles.
Sula, o conquistador romano de Atenas, ouvira falar de Apellicons e da sua famosa biblioteca, que ainda cheirava a húmus e a enterramento, e quando decidiu transferi-la para Roma, sentiu um orgulho tão duro quanto indiferente ao significado do que se salvara, pois não leu nenhum dos documentos que tinha comprado. A sua curiosidade era suficiente para o excitar com a história da biblioteca, muito mais interessante, na sua opinião, do que as vozes que nela se reflectiam. Nessa época, Roma comprava tudo: esculturas verdadeiras e obras falsas, crateras, vasos, joias etruscas e pratos da Magna Grécia. Num ano, era o vinho branco temperado que estava na moda, no ano seguinte, a seda oriental; uma estação depositava línguas de rosados flamingos nos lábios da elite, a seguinte, figos temperados com anis. Catão, o Velho, vituperava contra a superficialidade flutuante do gosto e desprezava a vaidade. Ao longo da sua vida, passou várias vezes à porta da biblioteca que pertencera a Pisístrato, mas nunca lhe fez uma única referência.
O conhecimento não deseja morrer, mas muito menos deseja permanecer eternamente no preciso lugar onde as suas ideias foram formuladas. As bibliotecas, quais pedras talhadas para a construção, transitam da velha para a nova casa em mãos que questionam menos a sua origem do que o milagre da sua permanência. A imortalidade de um livro reside na sua escrita, e a imortalidade da escrita reside na voz humana que, transcrevendo-se, escapa às garras do tempo, para espanto de quem ainda a lê.
A cultura nasce sempre sob suspeita, capturada por tiranos, traficada por impérios, enterrada por medo de que o poder a converta em ornamento ou em arma contra os próprios livros. No entanto, apesar de manchados de sangue e de vinho, riscados por disputas e guerras, esses volumes persistem como um tecido de memórias, obras e ritos que concede figura habitável ao mundo e resiste à redução do humano ao instinto ou ao consumo. Em vez de celebrarem o Estado ou o Mercado, as páginas guardadas, roubadas, vendidas e de novo salvas configuram uma política do intervalo: nelas abre‑se um espaço de dissenso silencioso, um abrigo frágil onde o leitor pode demorar‑se, longe da soberania e da barbárie, inventando outras fidelidades que não as do poder vigente. E porque todo o livro é um pedaço de silêncio nas mãos de quem lê, aquela biblioteca enterrada junto a Pérgamo é menos um tesouro arqueológico do que um refúgio: um lugar discreto onde o desejo de falar, recordar e pensar se protege da violência que funda a pólis e das modas leves que a corroem.
Quando, no fim, os livros de Pisístrato chegaram a Roma e se tornaram mais conhecidos pela anedota da sua viagem do que pelas vozes que continham, a barbárie revelou, como sempre, o seu rosto polido: não o da destruição aberta, mas o da indiferença elegante que reduz a cultura a curiosidade colecionável. Contra essa amnésia luxuosa, a simples sobrevivência material da biblioteca – transportada em sacos de pano e couro, cheirando a terra húmida, ignorada por Catão e manuseada por Apellicons – recorda-nos que a cultura só é abrigo quando é amada, exercida e transmitida como um modo de habitar o tempo, e não como decoração de prestígio. Nesse sentido, a história destes livros que não desejam morrer encarna a exigência infinita: uma ética sem garantias, que responde ao apelo dos mortos e dos ainda não nascidos, inventando instituições, leituras e comunidades capazes de limitar a violência e de reabrir, sempre de novo, o espaço comum. E, ao mesmo tempo, confirma que a cultura nasce da ferida e da perda: cada obra salva do fogo ou do esquecimento é um pequeno abrigo contra o caos, um intervalo de silêncio partilhado onde a linguagem se separa da força bruta e a humanidade, por um momento, se afasta do mal que desde o Éden a vigia.
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