Quando a tecnologia começou a responder-nos
A Inteligência Artificial merece um debate sério sobre riscos, trabalho, poder e dependência tecnológica. O problema começa quando esse debate é substituído por previsões de catástrofe, comentadores instantâneos e um discurso mediático que transforma especulação em conhecimento.
Sempre que surge uma tecnologia capaz de alterar profundamente a forma como trabalhamos, comunicamos ou acedemos à informação, instala-se uma combinação conhecida de expectativa, entusiasmo e receio. A Inteligência Artificial não escapa a esse padrão, embora o debate que hoje a acompanha tenha adquirido uma intensidade particular, alimentada não apenas pela velocidade da evolução tecnológica, mas também por uma comunicação social que encontrou no medo um tema inesgotável.
Quase diariamente somos confrontados com previsões sobre milhões de empregos ameaçados, profissões condenadas ao desaparecimento, máquinas que deixarão de obedecer aos humanos, sistemas que ultrapassarão inevitavelmente a inteligência humana ou sociedades incapazes de controlar aquilo que criaram. Algumas destas questões merecem investigação séria. Outras pertencem ao domínio da hipótese. Outras aproximam-se mais da ficção especulativa do que do conhecimento disponível sobre aquilo que a tecnologia consegue atualmente fazer.
O problema surge quando tudo isto é apresentado no mesmo plano, com o mesmo grau de certeza e, demasiadas vezes, com o mesmo dramatismo.
A história das grandes transformações tecnológicas deveria recomendar maior prudência.
Quando os computadores começaram a entrar nas empresas e, mais tarde, nas casas, também surgiram previsões sobre substituição de trabalhadores, desaparecimento de profissões e dependência crescente das máquinas. A informatização transformou profundamente o trabalho administrativo, financeiro, industrial e técnico. Processos que exigiam equipas numerosas passaram a ser executados por sistemas informáticos, muitas tarefas desapareceram e outras foram profundamente alteradas.
A sociedade não deixou de precisar de pessoas. Mudaram as tarefas, as profissões e as competências necessárias para as executar.
A chegada da Internet produziu outra vaga de previsões radicais. Durante os anos 1990 antecipou-se o desaparecimento do comércio tradicional, da imprensa, das bibliotecas, dos intermediários económicos e de várias formas convencionais de relacionamento social. A Internet acabou realmente por alterar todos estes domínios, mas a transformação foi muito mais complexa do que a generalidade das previsões feitas quando a tecnologia começou a massificar-se.
A própria bolha das empresas dot-com........
