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O Cristianismo e o mercado livre

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Da perda da fé cristã na Europa até à desconstrução do pensamento radical da Esquerda política, os tópicos que tenho trazido a esta área de opinião tendem a ser grandes demais para caberem, com a devida profundidade, num único artigo. Este não foge à regra. Hoje, pretendo analisar como o Cristianismo e a sua doutrina influenciaram o desenvolvimento do conceito de mercado livre, particularmente nas economias ocidentais.

Defino o mercado livre como fenómeno social onde agentes económicos se envolvem em trocas voluntárias, a preços definidos livremente, abertos à concorrência e relativamente livres de influência governamental.

Estou ciente de que o mercado europeu sofreu inúmeras influências históricas, filosóficas e culturais; neste texto, porém, foco-me apenas na influência religiosa e na moralidade que dela decorre. Vagueio entre a hipótese, a leitura das Escrituras e os factos históricos, enquanto procuro encontrar pontos de contacto entre fé, cultura e organização económica. Sujeito-me a este desafio por entender que, neste mundo pós-moderno, se tornou comum desvalorizar a fé cristã e as instituições europeias, tantas vezes sem verdadeiro conhecimento das suas raízes. Neste barco europeu, as velas e as cordas são os nossos valores e as nossas instituições e se alguém as quiser rasgar ou partir, devemos compreender a sua importância para que tenhamos a coragem de nos defender. Sejamos ou não cristãos na nossa fé, é difícil negar que a Europa, a nossa casa, assenta em fortes alicerces cristãos. Assim, de forma a entendermos em conjunto uma parte importante destes alicerces, tenho como objetivo mostrar ao leitor, na medida possível das minhas capacidades, como o Cristianismo foi um grande disciplinador da ética comercial europeia, valorizando ao mesmo tempo a importância do Cristianismo na Europa e a importância do mercado livre.

Acompanhe-me nesta viagem por um pouco de história e algumas ideias interessantes sobre religião e economia.

A dignidade da pessoa humana e a valorização do trabalho

O ponto de partida nesta análise será olhar para aquela que eu afirmaria ser a maior fonte de moralidade cristã e, consequentemente, uma coluna basilar na ética de mercado que dela se desenvolveu. Falo da ideia da dignidade universal do indivíduo.

Para todos os efeitos o Cristianismo iniciou uma erosão progressiva da noção, até aí instaurada, de que o valor do outro advém da sua posição social. Este foi um primeiro passo fundamental para surgir a ideia, ainda com Cristo, que o próximo é alguém a servir justamente. Embora o Judaísmo já tivesse em si embutido esta ideia, a sua popularização e instalação como axiomática nas sociedades ocidentais, deu-se com a implementação do Cristianismo.

O segundo ponto nesta jornada, surge com São Paulo e a construção da ideia da dignidade intrínseca em todo o trabalho. “Tudo o que fizerdes, fazeio-o de coração, como para o Senhor” (Colossenses 3:23). Todo o trabalho honesto pode ser espiritualmente elevado. Não existem hierarquias morais entre profissões, mas sim entre formas de encarar o trabalho. Paulo........

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