Quando tudo é espetáculo, nada é vivido
O ano começa agora, afinal, o Carnaval passou, o brilho sumiu e já podemos colocar os pés no chão. Mas será? Parece que neste ano o espetáculo continuará… e que ano teremos! Eleições, Copa do Mundo e tudo que tem ocorrido no exterior promete um ano e tanto – será um verdadeiro espetáculo!Mas o que estou chamando de espetáculo? Para Guy Debord, o espetáculo é uma forma de organização social, em que a vida é mediada por imagens e representações, algo típico do capitalismo moderno, e que substitui a vida real por uma encenação. Não se trata apenas do que vemos, mas de como passamos a viver por meio do que é exibido. O espetáculo não é o evento, mas a forma como nos relacionamos com ele.
Realidade em capítulos
Na prática, isso significa que acontecimentos festivos, políticos, crises internacionais, escândalos e até tragédias deixam de ser experiências coletivas a serem elaboradas e passam a ser consumidos como histórias. Assistimos, comentamos, reagimos – e seguimos. A realidade é apresentada em capítulos, com personagens, vilões e heróis, enquanto nós ocupamos o lugar de espectadores.Em um ano com tantos eventos, diferenciar realidade de espetáculo será um desafio. Será o Carnaval a vida real ou apenas uma narrativa paralela em que encenamos versões de nós mesmos? E a Copa, a eleição, as guerras, as crises internacionais? Como vamos nos relacionar com todas essas narrativas? Será um ano tão cheio que não nos permitirá sustentar o silêncio?
Quando criança, minha avó dizia que a Quarta-Feira de Cinzas era um dia em que não podíamos nem mesmo varrer a casa. Era um dia de pausa, de contenção, de silêncio. Mas ainda é possível haver silêncio em meio a tantas imagens? Se há, conseguimos sustentá-lo? Porque o silêncio, diferentemente do que se pensa, não anestesia – ele expõe. Ele obriga a sentir o que a narrativa tenta suavizar.E quem ganha quando tudo vira espetáculo? Ganha quem produz a narrativa, quem define o enquadramento, quem administra a emoção coletiva. A Escola de Frankfurt já alertava que a indústria cultural não apenas entretém; ela organiza afetos e domestica o pensamento. Isso é muito útil para quem está no poder.Quando tudo é vivido como espetáculo, a emoção é intensa, mas superficial. Vibra-se, comenta-se, posiciona-se. Mas não se sofre de verdade, não se pensa de verdade, não se elabora. A vida é substituída por sua representação. O excesso de imagens produz um curioso esvaziamento: quanto mais vemos, menos vivemos.
O problema não é o Carnaval, nem a Copa, nem as eleições. O problema começa quando o espetáculo se torna forma permanente de organização da vida – e de uma vida que já não é real, mas encenada. Se tudo é espetáculo, nada é vivido.E talvez seja isso que mais nos incomode na Quarta-Feira de Cinzas: ela nos devolve à vida real. E a vida real não é espetáculo. Ela é incômoda, contraditória, às vezes silenciosa demais. Mas é ali que a consciência começa. Porque, quando o espetáculo não termina, a consciência não começa.
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