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O Irão na língua da primavera

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20.03.2026

Nos últimos meses, o Irão voltou a ser tema de conversa em todo o mundo da forma mais habitual e trágica: através da linguagem da crise. Guerra, mudança de regime, sanções, destruição, geopolítica. Um país que é debatido, principalmente, através do vocabulário da estratégia e do confronto. No entanto, há outro calendário que chega silenciosamente todos os anos e que conta uma história muito diferente.

No dia 21 de março, no preciso momento do equinócio da primavera, milhões de pessoas em todo o Irão e grande parte da Ásia Central celebram o Nowruz, o Ano Novo Persa. A palavra significa simplesmente “novo dia”. Mas por trás dessa simplicidade está uma tradição que perdura há milénios, muito antes dos Estados modernos, das ideologias ou das fronteiras terem reconfigurado a região.

O Nowruz marca a chegada da primavera, quando o dia e a noite se encontram em perfeito equilíbrio e a terra inicia o seu regresso anual à vida. As suas raízes encontram-se em antigas tradições persas ligadas aos ciclos da natureza e à renovação da luz após o inverno. Embora tenha a sua génese no mundo cultural zoroastra, hoje é celebrado em diferentes culturas e crenças: Irão, Afeganistão, Cáucaso, Ásia Central e nas diásporas espalhadas pela Europa e América do Norte.

No centro da celebração está o Haft-Seen, a mesa tradicional preparada para o novo ano. O nome significa literalmente “sete S”, referindo-se a sete itens simbólicos cujos nomes em farsi começam pela letra “seeen“, imbuídos de um significado que remete para renovação e prosperidade.

As lentilhas (sabzeh) representam o renascimento. As maçãs (seeb) simbolizam beleza e saúde. O alho (seer) exprime a ideia de proteção e medicina. O vinagre (serkeh) invoca a paciência e a sabedoria que vêm com o tempo. O pudim de trigo doce (samanu) remete para força e abundância. O fruto seco do zambujeiro (senjed) está associado ao amor, enquanto as bagas de sumagre (somaq) simbolizam o nascer do sol e a vitória da luz sobre as trevas.

É habitual as famílias colocarem espelhos, velas, ovos pintados, flores, peixinhos dourados e, por vezes, um livro de poesia em torno destes sete elementos. Em muitas casas, obras como o “Divan” de Hafez ou o “Shahnameh” de Ferdowsi ocupam um lugar na mesa, como se a própria literatura fosse, ela também, um símbolo de renovação.

Antes da chegada do Ano Novo, as casas são sujeitas ao khaneh tekani – literalmente “abanar a casa”. Uma limpeza de primavera profunda destinada a remover o pó do último ano. Nos dias que antecedem o Nowruz, acendem-se fogueiras durante o festival de Chaharshanbe Suri, e as pessoas saltam sobre as chamas entoando uma frase que sintetiza o simbolismo do momento: “dá-me a tua vitalidade encarnada e recebe o meu amarelo doentio”.

Até a comida........

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