O Irão na língua da primavera
Nos últimos meses, o Irão voltou a ser tema de conversa em todo o mundo da forma mais habitual e trágica: através da linguagem da crise. Guerra, mudança de regime, sanções, destruição, geopolítica. Um país que é debatido, principalmente, através do vocabulário da estratégia e do confronto. No entanto, há outro calendário que chega silenciosamente todos os anos e que conta uma história muito diferente.
No dia 21 de março, no preciso momento do equinócio da primavera, milhões de pessoas em todo o Irão e grande parte da Ásia Central celebram o Nowruz, o Ano Novo Persa. A palavra significa simplesmente “novo dia”. Mas por trás dessa simplicidade está uma tradição que perdura há milénios, muito antes dos Estados modernos, das ideologias ou das fronteiras terem reconfigurado a região.
O Nowruz marca a chegada da primavera, quando o dia e a noite se encontram em perfeito equilíbrio e a terra inicia o seu regresso anual à vida. As suas raízes encontram-se em antigas tradições persas ligadas aos ciclos da natureza e à renovação da luz após o inverno. Embora tenha a sua génese no mundo cultural zoroastra, hoje é celebrado em diferentes culturas e crenças: Irão, Afeganistão, Cáucaso, Ásia Central e nas diásporas espalhadas pela Europa e América do Norte.
No centro da celebração está o Haft-Seen, a mesa tradicional preparada para o novo ano. O nome significa literalmente “sete S”, referindo-se a sete itens simbólicos cujos nomes em farsi começam pela letra “seeen“, imbuídos de um significado que remete para renovação e prosperidade.
As lentilhas (sabzeh) representam o renascimento. As maçãs (seeb) simbolizam beleza e saúde. O alho (seer) exprime a ideia de proteção e medicina. O vinagre (serkeh) invoca a paciência e a sabedoria que vêm com o tempo. O pudim de trigo doce (samanu) remete para força e abundância. O fruto seco do zambujeiro (senjed) está associado ao amor, enquanto as bagas de sumagre (somaq) simbolizam o nascer do sol e a vitória da luz sobre as trevas.
É habitual as famílias colocarem espelhos, velas, ovos pintados, flores, peixinhos dourados e, por vezes, um livro de poesia em torno destes sete elementos. Em muitas casas, obras como o “Divan” de Hafez ou o “Shahnameh” de Ferdowsi ocupam um lugar na mesa, como se a própria literatura fosse, ela também, um símbolo de renovação.
Antes da chegada do Ano Novo, as casas são sujeitas ao khaneh tekani – literalmente “abanar a casa”. Uma limpeza de primavera profunda destinada a remover o pó do último ano. Nos dias que antecedem o Nowruz, acendem-se fogueiras durante o festival de Chaharshanbe Suri, e as pessoas saltam sobre as chamas entoando uma frase que sintetiza o simbolismo do momento: “dá-me a tua vitalidade encarnada e recebe o meu amarelo doentio”.
Até a comida preparada para o Ano Novo tem um significado. O arroz com ervas aromáticas e peixe (sabzi polo bo mahi) celebra a frescura da primavera. A massa de arroz (reshteh polo) simboliza o sucesso na vida. E os pratos ricos em aromáticas e verduras espelham a primavera, altura em que a paisagem volta a ter cor findo o inverno.
Duas semanas depois, as celebrações terminam com o Sizdah Bedar, quando as famílias saem de casa para fazer piqueniques ao ar livre. As verduras do Haft-Seen são lançadas na água corrente para, simbolicamente, libertarem o infortúnio, permitindo assim que o novo ano comece.
O fio condutor comum a todos estes rituais é a ideia de renovação – a vida move-se em ciclos e cada fim traz a possibilidade de um recomeço. No entanto, estas tradições visíveis contam apenas uma parte da história cultural. Outros elementos centrais da cultura iraniana são frequentemente ignorados quando se debate o país apenas na ótica da política e do conflito. A poesia é um desses elementos.
Poucas sociedades entrelaçaram a poesia na vida quotidiana de uma forma tão profunda. No Irão, aprendi eu, a poesia não está circunscrita aos livros ou às salas de aula. A poesia surge naturalmente nas conversas, na música, nas celebrações e nos momentos de luto. As pessoas recitam versos de poemas para expressar afeto, oferecer conselhos ou descrever uma situação que a prosa, por si só, não consegue retratar. As famílias abrem o “Divan” de Hafez ao acaso, uma prática conhecida como fal-e Hafez, e procuram orientação nos seus versos. Provérbios e fragmentos de poemas são usados nas conversas do dia a dia, por vezes desligados dos nomes dos poetas que os escreveram.
Durante séculos, a poesia serviu quer como arquivo cultural, quer como vocabulário emocional. Preservou a língua farsi durante períodos de conquista e convulsões políticas, transmitindo memórias através de gerações. Entre as figuras mais veneradas na Literatura persa está Ferdowsi, cujo épico monumental “Shahnameh”, escrito no século XI, não só relata o passado mítico e histórico do Irão, como protege a língua farsi. Ao seu lado estão poetas cujas vozes viajaram muito além das fronteiras do Irão: Hafez, mestre do ghazal, uma forma poética composta por dísticos autónomos ligados pelo ritmo e pelo refrão, explorando amiúde temas ligados ao amor, à saudade e reflexão espiritual; Saadi, cujo trabalho combina reflexão moral e lirismo; e Rumi, cujas meditações sobre o amor e a espiritualidade ainda hoje têm eco em todas as culturas.
Os seus versos estão cheios de jardins, rouxinóis, rosas e estações que mudam, imagens que funcionam como metáforas para a experiência humana. A primavera, em particular, aparece repetidamente como símbolo de renovação e esperança. Talvez não seja coincidência que o Ano Novo Persa comece precisamente com a chegada desta estação do ano.
A tradição poética, porém, não termina nos mestres clássicos. No século XX, diversos escritores reinventaram a poesia persa para refletir as realidades da vida moderna. Figuras como Nima Yooshij romperam com estruturas clássicas rigorosas, abrindo a porta a novas formas poéticas. Poetas posteriores foram além desses limites. Como Forough Farrokhzad, que, nas décadas de 1950 e 1960, abordou temas de género, amor e liberdade pessoal com uma honestidade impressionante. A sua poesia desafiava convenções sociais e dava voz à vivência feminina de uma forma, até então, rara na literatura persa. Décadas depois, as suas palavras continuam a ecoar, não só como marcos literários, mas como uma linguagem viva através da qual as gerações mais jovens continuam a levantar questões ligadas à identidade, autonomia e liberdade – aspirações que encontraram expressões renovadas no recente movimento “Mulher, Vida, Liberdade”.
Ao longo destes séculos de transformação, a poesia permaneceu algo mais do que uma forma de arte. Tornou-se uma maneira de pensar, uma linguagem partilhada para expressar beleza, perda, saudade e resistência. Tudo isto existe em paralelo com as realidades políticas que dominam as manchetes internacionais.
O Irão de hoje continua, sobretudo, a ser olhado e discutido através da lente da geopolítica: negociações nucleares, sanções, teocracia islâmica, tensões regionais. Essas dinâmicas são reais e consequentes. Mas coexistem com uma civilização moldada por milhares de anos de literatura, arte e reflexão filosófica.
A pintura em miniatura da Pérsia traduz a imaginação poética em cor e forma. A arquitetura combina harmonia geométrica com inscrições caligráficas retiradas de obras literárias. O cinema iraniano, de Abbas Kiarostami a Jafar Panahi, transpõe frequentemente o mesmo ritmo contemplativo e a narrativa metafórica que carateriza a literatura persa.
Estas correntes culturais não desaparecem quando as narrativas políticas passam para o primeiro plano. Continuam a moldar a vida quotidiana, muitas vezes de forma discreta. E, no entanto, para quem cresce entre culturas, essa continuidade nem sempre é herdada por completo. Trata-se de uma linguagem redescoberta ao longo do tempo: o sabor de um prato que inesperadamente traz de volta uma memória, uma curiosidade crescente de ouvir, perguntar, compreender, ou ainda uma tradição reencontrada.
Na nossa casa, e tendo eu crescido em Itália, essa continuidade não se manifestava através de rituais como o Nowruz. Foi algo que comecei a perceber mais tarde, não tanto como um momento que assinalávamos todos os anos. O que permaneceu foi a língua. Os meus pais falavam sempre connosco em farsi. Eu e a minha irmã respondíamos sempre em italiano. Foi um acordo tácito que durou anos, uma coreografia linguística repetida à mesa de jantar, no carro, durante visitas familiares. Só mais tarde é que o padrão começou a inverter-se. Passámos os dois a falar mais farsi, redescobrindo palavras que sempre estiveram presentes, mas que raramente eram usadas, enquanto os nossos pais passaram a falar italiano com mais frequência. Descobrimos que a linguagem, afinal, tem o seu quê de circular.
Com o tempo, essa familiaridade abriu caminho a uma maior curiosidade sobre o que estava por trás da língua, da literatura, das tradições, dos ritmos de uma cultura que herdámos, mas não vivemos plenamente. Para mim, o Nowruz pertence a essa descoberta posterior, uma tradição aprendida paulatinamente e talvez mais valorizada precisamente devido a essa distância.
A identidade raramente surge como uma herança fixa. Acumula-se gradualmente, através da memória e da repetição.
O Nowruz simboliza esse processo. As famílias reúnem-se, os pratos são preparados, as histórias são recontadas, a poesia é recitada e a mesa, simbólica, é posta novamente. Os mesmos rituais repetidos ao longo de gerações, em diversos continentes, ligam o presente a uma paisagem cultural muito mais antiga, à qual agora, ainda que de forma singela mas significativa, quero transmitir aos meus filhos, enquanto preparamos os Haft-Seen e partilhamos esse momento.
No “Shahnameh”, as origens do Nowruz estão ligadas ao lendário rei Jamshid, que proclamou o dia de renovação quando o sol regressava em força e o mundo recuperava o equilíbrio. Mito ou metáfora, a ideia continua a ser poderosa: a primavera regressa.
Durante séculos, o povo iraniano preservou esta celebração, que resistiu a invasões, revoluções e transformações políticas. Impérios surgiram e caíram, fronteiras e governos mudaram, mas o Nowruz perdura como herança cultural partilhada.
Num momento em que o Irão é tantas vezes reduzido ao seu presente político, esse processo de redescoberta assume um peso diferente. Passa a ser uma forma de ver para além da imediatez da crise, rumo a uma história mais profunda da linguagem, da poesia, da arte e da tradição que continua a existir paralelamente. A haver um lado positivo na renovada atenção que o Irão agora recebe, poderá ser esta: uma oportunidade, por mais pequena que seja, de olhar para além da imediatez do conflito e de reconhecer a profundidade de uma cultura que não pode ser reduzida ao contexto político.
Todos os anos, aquando da chegada do equinócio, a mesma saudação passa silenciosamente de geração em geração: Nowruz mobarak. Que o novo dia seja abençoado.
Todas as opiniões expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor e não representam nem refletem as opiniões, políticas ou posições do seu empregador ou de qualquer instituição à qual esteja afiliado.
