IA e o “apocalipse dos trabalhadores”
“As palavras também têm caminhos por dentro, há que percorrê-los”
valter hugo mãe, O Apocalipse dos Trabalhadores
A publicação da primeira encíclica de Leão XIV, intitulada Magnifica Humanitas, ocorreu poucos dias antes da morte de Edgar Morin. Esta coincidência temporal lembra-nos que há pontos de contacto entre a epistemologia do filósofo francês e os conselhos, alertas e críticas da carta papal. À semelhança da teoria do “pensamento complexo” de Morin, o Papa exclui interpretações simplistas e fragmentadas da realidade. Faz um diagnóstico profundo do nosso tempo, vincando as contradições em que o atual processo histórico é fértil, em boa medida devido à disrupção tecnológica em curso.
Morin defendeu que precisamos de um “pensamento complexo” como modo de interpretar a realidade, sobretudo em épocas de crise ou rutura, como a atual. Já o Papa adverte para os riscos da simplificação proporcionada pelas tecnologias, as quais nos podem “habituar a delegar em demasia e a procurar respostas prontas, enfraquecendo a própria opinião e a criatividade.” Ou seja, Leão XVI teme que a humanidade se afaste do “paradigma da complexidade” teorizado por Morin.
A dependência excessiva de sistemas de IA e de respostas automáticas ameaça, segundo o Papa, a capacidade humana de julgamento próprio, reflexão crítica e espírito criativo. Estaríamos, assim, a criar sociedades de autómatos, incapazes de compreender a sua condição e a realidade que os rodeia. Isto significaria hipotecar “o desenvolvimento verdadeiramente humano”, nas palavras de Edgar Morin. Aquele que permite o “desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana.”
Na mesma linha de pensamento, Leão XIV censura a equiparação da IA à inteligência humana. “Estes sistemas imitam algumas funções da inteligência........
