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Defesa, informações e o país que escolheu não saber

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20.03.2026

Em Portugal, quando alguém fala de defesa, de segurança, de serviços de informações ou de indústria de defesa, há uma fracção considerável do espectro político que se agita. Não por razões estratégicas, por razões reflexas. Como se o tema fosse, por natureza, suspeito. Como se um país pudesse existir no mundo sem se preocupar com a sua própria protecção.

Vivemos durante décadas convencidos de que a redoma era eterna, a combinação rara de geografia favorável, ausência de ameaças imediatas e pertença a alianças que outros tratavam por nós. Essa redoma começou a rachar, na Ucrânia, no Médio Oriente, no Mar Vermelho, no Báltico. Talvez valha a pena, antes que rache de vez, aprender com quem nunca teve o luxo de a habitar.

Numa coluna anterior neste jornal abordei a economia israelita. Aqui uso Israel não como modelo normativo, mas como espelho funcional das escolhas que um país pequeno pode ou não fazer.

Portugal tem noventa e dois mil quilómetros quadrados. Israel tem vinte e dois mil. Portugal tem cerca de dez milhões de habitantes; Israel, um pouco menos. São dois países de dimensão comparável. Mas a comparação, para ser útil, tem de ir mais fundo do que a geografia e mais longe do que o caso extremo do Médio Oriente. Várias democracias europeias de dimensão semelhante mostram, em tempo de paz, que a prioridade dada à segurança e às informações não é um produto da guerra: é uma escolha política continuada.

O PIB per capita israelita ronda os cinquenta e quatro mil dólares. O português situa-se nos vinte e nove mil. A dívida pública israelita, em plena guerra de alta intensidade, está em cerca de sessenta e sete por cento do PIB. A portuguesa ultrapassa os noventa por cento, sem guerra, com orçamento de defesa residual. O desemprego israelita está abaixo dos três por cento, em mínimos históricos. As projecções de crescimento para 2026 apontam para cinco vírgula cinco por cento do PIB. O mercado de capitais mantém-se resiliente e continua a atrair investimento externo. As estimativas podem variar consoante a fonte, mas a ordem de grandeza é estável, e é isso que importa para o argumento.

Estes números não caíram do céu. Israel não tem petróleo, não tem recursos naturais........

© Jornal Económico