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Uma boa notícia para o Porto

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26.02.2026

Nos anos de Rui Rio, sentia-se o cheiro a cultura queimada logo pela manhã. Sofremos a execução sumária da Capital Europeia da Cultura. A lei da rolha. A confusão entre arte e divertimento. No ciclo ulterior, Rui Moreira e Paulo Cunha e Silva fizeram a fénix renascer dessas cinzas e tornaram a cultura num eixo estruturante da governação. Apesar de Pedro Duarte ter declarado, desde cedo, que com ele não haveria retrocesso, subsistia uma compreensível inquietação com o retorno do PSD à direção da política cultural; um receio inconfesso quanto ao destino de alguns projetos ou quanto à dotação orçamental. A entrada do independente Jorge Sobrado para o Executivo - com o programa que trazia a tiracolo intacto - dissipou de vez esses temores.

A entrevista que o vereador da Cultura deu a este jornal, há dias, é a todos os títulos exemplar. Estou à vontade para dizê-lo, pois bati-me ao longo dos anos pela mesma ideia de política cultural que ele aí defende, na Assembleia Municipal; verti-a nos programas autárquicos do PS, enquanto corredator; condensei-a numa série de seis artigos publicados neste jornal em 2025.

Sem ruturas com o legado marcante de Rui Moreira - antes uma "continuidade reformista" -, a entrevista manifesta uma consciência das fragilidades e lacunas do anterior ciclo (desde a centralização excessiva à secundarização de algumas áreas artísticas) e uma estratégia para as debelar e colmatar. Nesta era de hipnose algorítmica e overdose dataísta, em que nada sedimenta e nada permanece, é gratificante ver Jorge Sobrado afirmar uma "prioridade cultural dada à palavra, ao texto, ao livro e ao pensamento", com a Biblioteca Pública no seu âmago. Quem assim fala alista-se nessa causa maior da nossa época que é a batalha pelo espírito humano face às novas formas de alienação cognitiva e à servidão digital.

Mas este novo ciclo passará também por dar fôlego e espaço às estruturas independentes (através de apoios plurianuais, por exemplo), em vez de as subalternizar aos diretórios da programação municipal; por expandir a oferta infantojuvenil, acautelando os públicos de amanhã; ou prosseguir a correção da trajetória equivocada do Museu da Cidade.

Prioridades à parte, é uma boa notícia para o Porto que a sorte do seu setor cultural já não dependa da cor partidária do Executivo ou dos caprichos de quem transitoriamente lhe preside.


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