Entre abril e maio
Celebrámos na semana passada 52 anos do 25 de Abril de 1974. Desde aí, até hoje, temos vivido uma democracia numa sociedade aberta onde a liberdade tem permitido observar a separação de poderes.
Mas nem sempre foi assim. Entre 28 de setembro de 1974 e 25 de novembro de 1975, o país viveu momentos complexos e conturbados em que alguns tentaram subverter o sentido do sentimento da maioria do povo português. A tal maioria silenciosa que pressentia que alguma coisa estava a correr mal.
Terminada a guerra do Ultramar ou Colonial, seguiu-se o desmantelamento do setor económico com as nacionalizações num tempo em que Álvaro Cunhal dizia que nunca seríamos uma democracia parlamentar e burguesa. Um livro recente de Tomás Moreira intitulado "No terramoto de 1975" evidencia como esses tempos foram propícios a equívocos e a arbítrios de alguns a tudo o que se mexia. Alguns, entretanto, com uma patine de moderação, conseguiram, mais tarde, exercer cargos importantes no período constitucional.
Ouvi, de muitas vítimas desse tempo, na primeira pessoa, testemunhos muito complexos. Evoco aqui duas personalidades, já falecidas, mas que viveram de forma particular esse verão quente, José Vieira de Carvalho e José Avides Moreira.
Certo é que hoje alguns dos netos desses tempos revolucionários apresentam-se, uns vindos pela Esquerda outros pela Direita, com uma vontade de acertar as contas de um tempo que não viveram. No livro "Por dentro do Chega", o jornalista Miguel Carvalho explica-nos como foi gerado esse movimento de repulsa sobre os exageros da Revolução dos Cravos. A propósito do terrorismo de Esquerda, Nuno Gonçalo Poças explicou, em "Presos por um fio - Portugal e as FP 25", como tentaram à bomba mudar a afirmação democrática do país.
Hoje, o tempo talvez mereça aproveitar o discurso pedagógico do presidente da República e compreender que em todas as revoluções existem momentos de terror e em todas as democracias acontecem falhas e promessas não cumpridas.
Este ano, a abril sucedem-se os cem anos do 28 de maio de 1926. Felizmente que o Portugal de hoje compreende a importância da liberdade, a III República está mais sólida e a sociedade portuguesa acredita nas instituições.
