O tempo das coisas simples
Ainda hoje, quando oiço aquele zumbido mais grosso no ar, volto logo a Santana. Há sons que nos ficam nos ouvidos e que permanecem para sempre.
Não penso duas vezes. Vem-me à memória uma caixa de fósforos na mão, o cuidado de não a deixar abrir de repente... e nós, miúdos, com mais coragem do que juízo.
Apanhar zangões era quase um feito. Não era para qualquer um. Aqueles grandes, pesados, barulhentos. Apanhávamo-los com um cuidado que era metade coragem, metade inconsciência. Metíamo-nos dentro da caixa de fósforos das grandes, como se estivéssemos a guardar um tesouro vivo. Depois vinha a parte mais engenhosa: com jeito, abríamos uma pequena fresta, amarrávamos uma linha na pata e deixávamo-lo voar. E lá ia ele, preso ao nosso comando, a zumbir pelo ar, como um papagaio improvisado, barulhento e meio descontrolado. Coisas de........
