Uma abordagem católica para os dilemas da inteligência artificial
Os católicos – mas não só eles (melhor dizendo, nós) – aguardam a divulgação, nesta segunda-feira, de Magnifica humanitas, a primeira encíclica do papa Leão XIV, que foi assinada em 15 de maio, aniversário da Rerum novarum, o texto que deu o pontapé inicial na Doutrina Social da Igreja. Desde o início do pontificado, Leão havia dito que se inspirava no seu predecessor, que viveu as dramáticas mudanças causadas pelo advento da era industrial, afirmando que a inteligência artificial promoverá (ou já está promovendo) uma revolução semelhante.
Mas o mundo católico já tem se debruçado sobre o tema da inteligência artificial desde antes da eleição de Leão XIV. O Vaticano já havia publicado documentos como Antiqua et nova, e estudiosos católicos vêm refletindo sobre as implicações e o uso correto da IA. Um resultado dessas reflexões é Encontro com a Inteligência Artificial – Investigações éticas e antropológicas, que a PUCPress, editora da PUCPR, acaba de lançar. O livro foi produzido pelo Grupo de Pesquisa em IA do Centro de Cultura Digital, vinculado ao Dicastério para a Cultura e a Educação, reunindo colaborações do período de 2020 a 2023 – por isso o papa Leão XIV não é mencionado – e organizadas por quatro editores: Matthew Gaudet, Noreen Herzfeld, Paul Scherz e Jordan Wales.
É claro que podemos simplesmente dizer que a inteligência artificial é uma ferramenta, que pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal, e que por isso tudo só depende da forma como a empregamos. É uma resposta fundamentalmente correta, mas superficial. A IA está mudando tanta coisa, em tantas áreas e com tanta intensidade, que não basta afirmar apenas que precisamos “usá-la bem”, sem refletir com profundidade sobre o que está de fato acontecendo e sobre qual deve ser a nossa resposta. O livro é uma contribuição nessa direção.
A IA resolve problemas, de formas que considerávamos inimagináveis até pouco tempo atrás, mas ela cria no sentido mais profundo da palavra?
A IA resolve problemas, de formas que considerávamos inimagináveis até pouco tempo atrás, mas ela cria no sentido mais profundo da palavra?
Depois de uma breve apresentação que explica os princípios básicos da IA, o livro se divide em duas grandes partes. A primeira traz, digamos, a teoria: são as questões mais filosóficas sobre a inteligência artificial, cuja emergência nos força a questionar vários conceitos, a começar pelas ideias de “pessoa”, “consciência” ou “inteligência”. Comecemos por esse último conceito. Em que sentido, por exemplo, podemos dizer que a inteligência artificial é de fato inteligência?........
