Tratamento médico precisa levar em conta a espiritualidade do paciente
Quando Christina Puchalski era estudante de Medicina, atendeu uma testemunha de Jeová que ficara gravemente doente. A paciente deixou muito claro que não queria receber transfusão de sangue, proibida por suas crenças religiosas. O cirurgião foi contrário, afirmando que ela morreria. Puchalski insistiu: “‘existem outros produtos e alternativas que talvez possamos utilizar’, eu disse. Acabamos encontrando uma solução”. Ao acordar da cirurgia, a primeira coisa que a paciente perguntou foi: “doutora, eu recebi algum produto sanguíneo?”. Quando Puchalski respondeu que não, a paciente começou a chorar: “se eu tivesse recebido sangue, eu nunca poderia estar com Deus”, disse ela, agradecida. “Na época eu ainda era estudante, mas me envolvi na discussão porque acreditava que era importante respeitar a decisão dela. Por isso a defendi, embora tivesse recebido muitas críticas por isso”, diz a médica.
Hoje professora do curso de Medicina da George Washington University, Puchalski é uma das principais defensoras da integração das necessidades espirituais do paciente no tratamento médico. Ela é uma das criadoras da ferramenta Fica, união das iniciais de “fé” (se o paciente acredita em algo), “influência” (o quanto a crença é importante para o paciente), “comunidade” (se o paciente participa de algum grupo ligado à sua espiritualidade) e “ação” (que tipo de intervenções o paciente gostaria que fossem feitas para suprir suas necessidades espirituais), que pode ser usada por profissionais de saúde na avaliação dos pacientes. Puchalski foi a principal convidada do 7.º Congresso Internacional de Ciência, Saúde e Espiritualidade (CoNupes), realizado no fim de maio em Juiz de Fora (MG), e conversou com o Tubo de Ensaio sobre a importância de integrar a atenção à espiritualidade nos serviços de saúde.
Por que é importante ou necessário integrar a espiritualidade aos cuidados de saúde?
Porque tratamos a pessoa como um todo. Sintomas físicos podem ter ramificações emocionais, sociais e espirituais. Se alguém chega reclamando de dores de cabeça e sua pressão está muito alta, eu pergunto sobre medicamentos, sobre alimentação, sugiro reduzir o sal, mas também pergunto sobre estresse porque é importante entendermos o máximo possível sobre o paciente. E também pergunto sobre espiritualidade. Posso perguntar, por exemplo: “na última consulta você me disse que frequentava a igreja e que isso ajudava. Ajudou mesmo? Você continua indo?” Se a pessoa responde que não sente mais vontade, procuro refletir junto com ela. Não digo o que deve fazer; pergunto “o que você acha disso?”
Eu trabalho muito com pessoas pobres em Washington. São famílias, por exemplo, que perderam parentes para a Covid porque viviam em condições muito difíceis. A dimensão social afeta diretamente a saúde. Quem é pobre provavelmente consumirá alimentos industrializados congelados, cheios de sal. Não posso simplesmente dizer a alguém nessa situação que vá comprar alimentos naturais, que custam caro, porque o paciente não terá condições financeiras para isso. Então trabalhamos juntos para descobrir quais mudanças são possíveis dentro da realidade da pessoa.
“Se a verdadeira causa do sofrimento é espiritual e nós não a abordamos, acabamos oferecendo medicamentos, exames e tratamentos que não respondem ao que está acontecendo na alma daquela pessoa.”Christina Puchalski, médica e professora da George Washington University.
“Se a verdadeira causa do sofrimento é espiritual e nós não a abordamos, acabamos oferecendo medicamentos, exames e tratamentos que não respondem ao que está acontecendo na alma daquela pessoa.”
Um outro exemplo: se uma paciente está sob estresse, e eu já abordei a espiritualidade antes com ela, posso perguntar: “você me contou que frequentava a igreja regularmente. Continua indo?” Ela responde: “meu pai está tão doente que nem tenho tempo para ir à igreja. Eu apenas rezo”, e então eu continuo: “como você se sentia quando ia à igreja?”, e ela responde que se sentia muito apoiada. A partir disso, pensamos juntos: talvez seja possível ir uma vez por mês, ou alguém da igreja, ou o padre ou pastor, podem visitá-la em casa. Procuramos maneiras de lidar com essa necessidade.
Tenho pacientes que meditavam e depois pararam. Pergunto se eles acham que isso tem relação com a pressão alta ou o nível de estresse, e vamos conversando até eles me dizerem algo como “estou começando a sentir que não há mais lugar para mim. Antes eu encontrava muito significado no meu trabalho, mas agora não estou trabalhando”. Isso é um tema espiritual; então eu exploro essa questão.
Repare que não se trata apenas de aplicar uma ferramenta de avaliação espiritual e encerrar o assunto. É preciso aprender mais sobre essa dimensão, assim como fazemos com qualquer outra dimensão da vida humana.
Então, o que perdemos quando não abordamos as questões espirituais durante o cuidado em saúde?
As pessoas que sofrem acabam saindo sem que suas necessidades reais sejam atendidas. Uma vez, tive uma paciente nova que me contou da sua consulta com outro médico, de uma especialidade diferente. Ele perguntou como ela estava, e ela respondeu, chorando: “estou péssima. Meu marido morreu há duas semanas e não sei o que fazer”. O médico disse: “posso receitar um antidepressivo”. Como assim? Ela estava chorando, vivendo o luto, e a resposta foi oferecer um antidepressivo?
Maioria dos psicólogos crê em Deus, mas só discute religião com paciente se ele........
