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Todos os canceladores serão cancelados

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13.03.2026

Durante bastante tempo, a cultura do cancelamento pareceu um fenômeno irreversível. Nas redes sociais, bastava uma mobilização repentina — um post indignado, uma denúncia amplificada, um coro de reprovação — para que reputações fossem demolidas em poucas horas. Um deslize, uma piada infeliz, uma frase mal formulada ou uma opinião impopular bastavam para ameaçar carreiras inteiras.

Artistas, intelectuais e acadêmicos aprenderam rapidamente as regras implícitas desse novo tribunal moral: alinhar-se às campanhas de cancelamento era prova de virtude; questioná-las, sinal de cumplicidade com o mal. Em uma era dominada pelas redes, o cancelamento consolidou-se como instrumento de justiça rápida e implacável, evoluindo para um mecanismo de linchamento virtual.

Criticar publicamente um colega acusado tornou-se uma forma rápida de demonstrar alinhamento — uma espécie de seguro reputacional. Ao participar do linchamento, esperava-se evitar ser linchado. Mas cada nova onda de indignação redefine os limites do aceitável. Quem ontem parecia estar do lado certo da História descobre, de repente, que ficou do lado errado da versão atualizada.

A armadilha é inevitável: quem empunha a tocha da moralidade digital descobre, mais cedo ou mais tarde, que a chama queima nos dois sentidos. Quem legitima o cancelamento como forma de justiça moral admite implicitamente que esse mecanismo poderá ser usado contra qualquer um — inclusive contra quem o defende.

Diferentemente dos sistemas jurídicos formais, a cultura do cancelamento não tem critérios claros, procedimentos previsíveis nem direito de defesa.........

© Gazeta do Povo