Lula diz que não é de esquerda e se revela um homem sem qualidades
Chamou a atenção, nesta semana, um áudio vazado de uma conversa particular de Lula com seus pares e assessores num dos corredores do G7. O áudio mostra o presidente do Brasil declarando que o mundo não é de esquerda, e que ele próprio nunca foi esquerdista. A frase não foi arrancada sob pressão, nem consistiu em mais uma “gafe” com microfone aberto: ela foi dita com a fluidez e a naturalidade de quem estava à vontade com a própria contradição, alguém que, tendo passado décadas inteiras habitando simultaneamente discursos incompatíveis, já nem percebe o abismo entre eles.
Para entender o que esse momento revela, é preciso primeiro entender com que tipo de personagem estamos lidando – e a literatura, que sempre descobre as verdades antes da política, oferece os retratos mais precisos e, ao mesmo tempo, impiedosos. Robert Musil criou Ulrich, o protagonista de O Homem sem Qualidades, como um ser de pura potencialidade: inteligente o suficiente para ver todos os lados de todas as questões, capaz de habitar qualquer posição com competência e até com convicção momentânea, mas comprometido com nada de forma permanente – um homem para quem a identidade é sempre uma possibilidade entre outras, nunca uma escolha definitiva que exclui as demais. Ulrich não é hipócrita no sentido vulgar: ele simplesmente nunca encontrou, nem procurou com demasiada seriedade, o núcleo duro que faria de suas opiniões algo mais do que variações inteligentes sobre temas em aberto.
Woody Allen imaginou Zelig de maneira diferente, mas igualmente reveladora: o camaleão humano que se transforma literalmente para se parecer com quem está ao seu lado – judeu entre judeus, nazista entre nazistas, revolucionário entre revolucionários, aristocrata entre aristocratas –, não por hipocrisia calculada nem por convicção alguma, mas por uma necessidade visceral e quase patológica de aprovação que anula qualquer identidade estável antes que ela possa se formar. Zelig não escolhe ser camaleão: ele simplesmente não sabe ser outra coisa, porque ser outra coisa exigiria um eu que, em algum momento da formação, não se constituiu.
E Mário de Andrade nos deu Macunaíma, o herói sem nenhum caráter: não no sentido moral da palavra, mas no sentido ontológico e quase metafísico – um ser sem forma própria, que muda de pele conforme o ambiente e a conveniência, que é simultaneamente índio e europeu, preguiçoso e astuto, criança e adulto, herói e bufão, que pertence a todas as tradições e, precisamente por isso, a nenhuma delas, cuja única constância identificável é a ausência absoluta de constância.
O talento camaleônico de Lula não nasceu do nada, nem é puramente individual: foi cultivado e refinado dentro de uma tradição política que o antecede
O talento........
