Duas vitórias e uma derrota
Na segunda-feira, a Comissão Europeia tinha prevista uma reunião extraordinária dos 26 Comissários e da Presidente da Comissão para discutir a estratégia europeia em relação à China. Em vez disso, a reunião foi sobre como resolver o impacto, sobretudo energético, da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irão. Em vez de uma prioridade estratégica permanente, os comissários europeus estiveram a pensar sobre como proteger a Europa das consequências das decisões da Administração Americana. Uma vez mais, em menos de ano e meio, os europeus têm de reagir aos estragos provocados por decisões de Washington em que não foram consultados. Noutras ocasiões os visados eram mesmo os europeus (tarifas) ou os seus interesses (traição da Ucrânia).
Na mesma segunda-feira, a quase totalidade dos líderes europeus celebraram a derrota de Órban por três razões (tendo a maioria deles celebrado, ainda, a vitória de Péter Magyar que está alinhado com a maioria das lideranças europeias).
Em primeiro lugar, Órban é o representante dos partidos nacionalistas iliberais que desafiam os partidos de governo europeus. É o amigo e exemplo para Ventura, Abascal, Le Pen, Alice Weidel e por aí fora, chegando a Farage. Para os partidos tradicionais, em particular para os que são desafiados por estes candidatos, a derrota de Órban é um sinal de esperança. Ainda que cada caso seja diferente, quer dizer que o nacionalismo populista iliberal, além de governar mal, mesmo no poder pode ser derrotado. Pela direita, como foi na Hungria. Ou pela esquerda, como foi nos Países Baixos.
O segundo motivo de satisfação é a derrota do traidor interno. Órban tem estado contra a Ucrânia, ao lado de Putin e de Trump (já lá vamos), que as lideranças europeias consideram ser a principal prioridade europeia. E tem-no feito combinando-se com Putin, a quem reportava o que era discutido em Bruxelas e com quem combinava o que dizer.
A derrota de Trump (e Vance, que foi a Budapeste apoiar Órban) é o terceiro motivo de celebração para os líderes europeus. O empenho desta administração americana no sucesso dos partidos nacionalistas populistas iliberais é uma enorme ameaça e traição à Europa. Para as lideranças europeias, o facto, inédito, de Washington trabalhar activamente para a derrota dos partidos que reconstruíram a Europa do pós guerra é imperdoável. A sua derrota é uma vitória que os europeus estão a saborear. E que se junta a outra, recente.
As tarifas, a linguagem, o investimento na defesa e segurança, podem ser vistos como temas de confronto entre aliados (mesmo que extraordinários no tom e na forma). A ameaça à Gronelândia foi outra coisa. Nem na crise do canal do Suez se tinham os EUA portado assim, ameaçando a integridade territorial de um aliado europeu.
Na Gronelândia, ameaçando usar contra a América um instrumento pensado para responder à China, os europeus viram Trump voltar atrás. Por causa da ameaça, da reação dos mercados ou dos militares, quase tanto faz. Os europeus perceberam que Trump podia ser confrontado e derrotado.
E aqui chegados, voltamos ao começo. Desde 2019, quando definiram a China como “parceiro, competidor e rival sistémico”, e, depois da Pandemia, quando concluíram que a interdependência em relação a Pequim era fonte de condicionamento unilateral e não de constrangimento mútuo, Bruxelas e as capitais europeias queriam e deviam estar a desenvolver uma estratégia de redução da exposição ao risco chinês. De que a reunião de segunda-feira fazia parte. Trump, porém, tem obrigado a mudar essa prioridade europeia. Por um lado, não é fácil responder à China em cooperação com Washington quando os EUA se portam como adversários políticos, económicos e sistémicos da Europa. Se a América escolhe Le Pen, Alice Weidel e Órban, dificilmente é aliada das lideranças europeias, dificilmente se pode dizer que partilhamos valores e dificilmente se mantém a confiança transatlântica. E se não há uma partilha de valores entre os dois lados do Atlântico, o que sustém essa relação?
Os líderes europeus deviam estar preocupados com Pequim, mas andam demasiado ocupados com Washington. Se, daqui a uns anos, perguntarem como foi a decadência da América e do Ocidente, lembrem-se destes dias.
