A esquerda: reinventar-se ou naufragar
Por que razão uma força política que, há bem pouco tempo, já foi maioritária e representou os interesses da maioria continua a perder? Esta é, talvez, a pergunta mais incómoda que a esquerda contemporânea se recusa a responder com honestidade. Preferindo frequentemente o conforto da denúncia moral à aridez do diagnóstico rigoroso, tem trocado a eficácia pela identidade e a estratégia pela estética da resistência. O resultado está à vista: partidos outrora hegemónicos entre as classes populares são hoje minoria no seu próprio eleitorado histórico, substituídos por formações de extrema-direita que souberam ocupar, com uma narrativa falsa mas emocionalmente poderosa, o vazio deixado pela desindustrialização e pelo abandono dos bairros e das periferias.
Existe uma contradição estrutural raramente nomeada: a esquerda do século XXI ganhou o debate das ideias e perdeu o combate político. A noção de desigualdade sistémica entrou na agenda do Fórum Económico Mundial. O Green New Deal foi debatido nos parlamentos de todo o Ocidente. O movimento Occupy Wall Street recolocou na arena pública a concentração de riqueza. E, apesar de tudo isso, a extrema-direita governa ou cogoverna, em Itália, (até há bem pouco tempo na Hungria), nos países nórdicos e em Espanha (governos regionais).
A explicação habitual, a manipulação mediática, o poder do capital, a falsa consciência das massas, tem a vantagem de absolver a esquerda de responsabilidade. Tem, porém, o defeito de ser parcialmente errada. A ascensão das direitas populistas resultou também da incapacidade da esquerda em responder às angústias de quem perdeu o emprego industrial, de quem viu o bairro transformar-se sem qualquer apoio público à integração, de quem percebeu que a globalização beneficiava uma elite cosmopolita enquanto as suas comunidades se esvaziavam. A Terceira Via abandonou estas populações em nome de uma modernização que apenas servia os já modernizados — e o espaço político vazio foi preenchido por hábeis manipuladores do ressentimento.
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